Pela estrada de poeira vermelha

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O avô disse que a estrada já foi limpa. O pai disse que não, que aquele matagal do acostamento sempre esteve ali. O avô resmungou e cuspiu um cuspe amarelo de fumo no chão. O pai olhou pro avô e os dois tinham os olhos vazios. Lá fora um carro levantou poeira vermelha de falta de chuva. Ali dentro uma bocha bateu na cancha e um estouro de madeira ecoou no galpão.

O pai levantou e disse que era hora de ir. O avô resmungou e acenou pro bolicheiro. Uma pura. O pai riu um riso preocupado e tentou argumentar que na idade do avô aquilo não era coisa que se faça, que o corpo, justamente por ser corpo, desgasta com o tempo e que não adianta correr pra lá e pra cá atrás de médico se o fígado estourar de vez. O avô falou que ele não tinha nada que ver com a sua vida, que ele fazia o que bem entendia, que se um homem não tem um pingo de liberdade depois de velho, mais vale é virar comida de tatu de cemitério.

O pai não insistiu. Veio o bolicheiro e pôs o copo em cima da mesa. O avô viu o pai ir com vontade de olhar pra trás. Bebeu um gole, fez uma careta e esmurrou a mesa. O bolicheiro pôs a toalha branca no ombro e voltou pra trás do balcão. O pai disse vamos pro filho que brincava com uma cadela malhada e disse tchau mãe pra avó que o abraçou.

O avô ouviu o barulho do carro do pai cruzar. Tomou outro gole, levantou, largou duas moedas pro bolicheiro e saiu. A avó o olhou com ar de reprovação e perguntou se ele andou bebendo de novo. Não bebi e te aquieta que tu ganha mais. A avó não falou nada porque sabia que era como pedir resposta pra Deus. O avô andou até a varanda e se atirou na cadeira de balanço.

O carro do pai ia pela estrada e o filho perguntou por que ele estava quieto. Nada, nada demais. Ligou o rádio e um violão chiado preencheu o silêncio entre os dois. Quente hoje pai, disse o filho gritando pelo volume da música. É, quente mesmo. A gente sabe como é março pra esses lados. Mas diz que lá pro norte chove pra caramba. Negócio inverteu. E seguiram assim até chegar em casa.
O avô permaneceu sentado na cadeira de balanço. Pitava o palheiro de quando em quando e ouvia de longe a televisão que ria e cantava. Pito daqui, pito dali, o pai chegou em casa com o filho e a noite veio. Vai dormir cedo hoje, tu correu o dia inteiro e amanhã a aula é bem cedo. Tá tá tá tá, cadenciou o filho enquanto ia pro banho. O pai foi até a cozinha, colocou uma lasanha congelada no microondas e pegou o telefone. Não tem problema se ele posar aqui hoje, perguntou. Não, fica tranquilo, respondeu a mulher do outro lado, amanhã eu passo aí e pego ele. Tá certo, a gente se vê.
O microondas apitou e o pai arrumou a mesa. Abriu um refrigerante e lá fora uma ambulância cruzou pela avenida. Em outros tempos, em outra cidade, nem iria lembrar que era uma ambulância. Naquele tempo, naquela cidade, notava isso e até se preocupava. O filho apareceu na porta da cozinha. Demorou hein, disse o pai. É que eu não conseguia ajeitar a água daquele chuveiro. Aquele negócio tá meio estragado mesmo. Sentaram e comeram mudos, o pai olhando pro filho por cima do prato e o filho concentrado no prato.

O avô levantou da cadeira de balanço e cruzou pela avó que continuava na frente da televisão. Mas tu não cansa o olho, mulher. Problema é meu. Que cegue. Foi pro quarto, deitou e dormiu. Escuridão caída na estrada, o avô sonhou com o dia em que ela era limpa. O pai lembrou das palavras do avô e sorriu pro filho que dormia ao seu lado.

P.S.: Na semana passada, excepcionalmente deixei de publicar minha coluna semanal. Culpa de alguns compromissos de última hora que me fizeram perder o prazo de envio. Agora, porém, fecho o ciclo dos cinco contos prometidos. Foram os seguintes: “O Efeito Gangorra”, “O jogo”, “A epidemia”, “Aline” e (por derradeiro) “Pela estrada de poeira vermelha”. Conforme já referi, tratam-se de estórias que escrevi em diferentes momentos da minha vida e que retratam, seja da forma que for, o conteúdo dessas vivências. Mas a partir do próximo sábado procurarei retornar com meus textos opinativos semanais. Obrigado pela paciência de todos, já que meu talento como contista certamente não é dos maiores.