Poeminha de Floração

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Vivemos uma primavera antecipada. A floração começou. “In Bloom”, diria Kurt Cobain. Basta circular pela cidade pra perceber. Sem contar o calor que fez em agosto, coisa estranhíssima. Onde já se viu trinta graus em pleno inverno? Conversando com pessoas dos seus sessenta, setenta anos, descobri que realmente foi uma raridade. Há décadas algo assim não ocorria. Desconheço as causas, porém. Quem sabe, o aquecimento global. Talvez, pura birra do tempo. Ou uma sacanagem de São Pedro.

Mas o que tenho percebido, é que existe um desânimo geral no ar. Uma espécie de “semi-depressão coletiva”. Não tenho credenciais médicas para qualquer afirmação embasada, mas converso com muita gente todos os dias e a sensação é palpável. Minha amiga Ana Lara Tondo disse que deve ser algo no ar ou na água. Já minha amiga Kátia Goretti, falou que é simples questão atmosférica, fruto da estação. Francamente, não faço ideia. Mas que se trata de algo evidente, isso é claro.

Fato é que decidi pensar no assunto e cheguei a uma conclusão: mais provável é que seja culpa da rinite alérgica. Oito entre dez pessoas sofrem disso. Nariz escorrendo, olhos coçando e espirros pra todo lado. Uma beleza! Manter a concentração no trabalho ou nos estudos, torna-se sofrível nessa época. Isso que nem levei em conta a constatação de que, se o inverno está assim, imagina o calor que fará no verão. Contas de luz virão estratosféricas e seres que padecem de pressão baixa desmaiarão pelos cantos.

Mas que nada. Dentre ranhos e lágrimas, a vida seguirá e o ano, quando menos esperarmos, acabará. Ou será que não chega a isso? Dizem os Maias e toda aquela gente que se interessa por baboseiras místicas ou pseudo-científicas, que dia 21 de dezembro de 2012 é a data limite de tudo. Como um iogurte com prazo de validade estourado, nosso planeta deixará de ser habitável. Pode? Não duvido de nada. Mas enquanto isso não acontece, sigo respirando gás carbônico, brabo com o novo acordo ortográfico.

Por falar nele, pense comigo: qual o sentido de escrever “ideia” sem acento? Tudo bem que haja todo um fundamento gramatical pra isso. Mas a palavra “ideia” perdeu seu caráter de “novidade” ao ser grafada sem acento. Resumindo: foi-se ralo abaixo o “plim!” da lâmpada do Pato Donald representado pelo acento agudo. Os caras que fizeram essas novas regras deveriam ter um pouco de senso estético. Mais leitura de Haroldo de Campos e Décio Pignatari poderia evitar impropérios formais do tipo.

De qualquer modo, teremos que nos adaptar a tudo isso. Mas será que devemos nos adaptar ao desânimo? Óbvio que não. Seria entregar os pontos e aceitar o cárcere das sensações. Se “filosofar é aprender a morrer”, como disse Montaigne, pensar sobre nossa condição, seja ela qual for, é segurar as rédeas da sua superação. Funciona como uma sessão psicanalítica de si para si, na qual você delimita os quadrantes da sua existência, procura alguma racionalização possível e acha saídas para este labirinto construído pela bioquímica cerebral.

Então negócio é ouvir Kaiser Chiefs e gritar: “adelante!”. O desânimo passará, a primavera passará, o próximo verão passará, outro inverno virá e novamente poderemos tomar nosso vinho tinto seco sem se preocupar com o calor. Como diz o Eclesiastes em seu capítulo 1, versículo 5: “O sol se levanta, o sol se põe, voltando depressa para o lugar de onde novamente se levantará”. Mas pra encerrar, em homenagem aos companheiros alérgicos, nunca esquecendo dos órgãos públicos que nos impedem de podar árvores sem uma rubrica à Kafka, deixo meu “Poeminha de Floração”:

Ah!, a primavera! / Uma estação feliz!
Na qual você espirra pólen / E passa assoando o nariz!

Ah!, a primavera! / Como me deixa inspirado!
Ao transpirar corticoides / E me sentir inchado!

Ah!, a primavera / Prelúdio de um quente verão!
Bom pra gente desmaiar / De tanto que baixa a pressão!