Por tanto mando e desmando

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Por tanto mando e desmando, por tanta dor e sofrer,
tem horas que quero querer fugir, me esconder de tudo.
Mas se deixarei o mundo do modo como se encontra,
não estarei fazendo de conta que esqueci seu grito mudo?

Daí um ou outro me diz: “Desencana que não tem jeito!
Seja pivete ou prefeito, é a grana que satisfaz.
Não pense que ser feliz é mais do que só comprar
e quem sabe poder deitar pra ter um momento de paz!”.

Ouço quieto, remoendo as respostas que não tenho –
e aquilo que obtenho desse matutar sem fim,
são meus sonhos correndo pra esfacelar no chão,
perdidos, sem direção, desfazendo o que há em mim.

Respiro e procuro a calma que talvez nunca encontre
no lance dos horizontes que descrevem cada sol:
sei que o que chamam “alma” é um chorume de sinapses
que tenta, com suas sintaxes, funcionar como um anzol
pra pescar meus sentimentos, minhas paixões e calores,
minhas razões e sabores, com a linha do tal “além”.

Consciente desses “intentos”, entro em contradição:
se tanta é a desilusão, há como apostar em alguém?

Será que tudo é dinheiro? Será nada é sincero?
Será que aquilo que espero é algo inatingível?
Será que no mundo inteiro ninguém mais ouve o que ouço?
Será que esqueci no bolso, num papel ilegível,
o plano de um futuro que botei pra lavar?

Resmungo: “Deixe estar”. Mas logo calo a boca:
quem fica em cima do muro, sem ter um lá e um cá,
pode escolher a pá – na cova, é coisa pouca.

Por isso é que não me escondo e só miro no final,
ciente que um ideal não serve só pra escora.

Dos gritos, sei o estrondo. Das tristezas, o caminho.
Da vida, cada espinho que espreita hora a hora.

Assim, meio de canto, escrevo uns versos toscos,
entrevendo mil enroscos nas pregas de cada rima.

É certo, portanto: não chego a nenhum lugar.

Mas por qual motivo chegar “mais pra lá de lá em cima”,
se tenho aqui ao lado quem eu amo pra espiar?

Isso cala todo o alarde. Isso encerra meu dilema.

Até a próxima hora, escrevo mais um poema.