Presidente e idiotas

0
136

Presidente

Sonhamos grandiosidades na juventude. Mas o tempo corta nossos naipes. Lembro de uma festa, no primeiro ano da faculdade, na qual bradei dentre vinhos que me tornaria presidente do Brasil. O que sobrou daquela fala? Meu interesse por política e minha preocupação com os rumos do planeta? Talvez. Mas o fato é que hoje sei delimitar meus horizontes. Não que me prive de sonhos, não que ignore mudanças radicais. Nesse último quesito, aliás, até sou corajoso.

A delimitação que refiro, pelo contrário, está para o reconhecimento das nossas limitações com a finalidade de que desenvolvamos nossas capacidades. Falando assim, até parece manual de autoajuda. Mas não é. Pense o seguinte: reconhecer que você não pode ser um gênio da matemática é o primeiro passo para perceber que você não sabe e nunca saberá de tudo. Aí a lição.

Por isso é estranho, ao menos para mim, observar pessoas que se creem cientes da origem e do destino do Cosmos por questões religiosas, por exemplo. Trata-se de algo que me soa alucinógeno, no melhor estilo “chá de cogumelo”. Não é que essa coisarama toda não possa existir: você pode crer no que você quiser. Mas não é pretensão demais julgar que alguma entidade divina fala aos ouvidos de certos escolhidos e sonega uma massa certamente tida como bovina? Esse é o ponto.

Assim como larguei de mão do meu alcoólico discurso que jamais me colocaria da presidência da República, é interessante abdicarmos de sensos infantis que cegam nossas perspectivas de mudança e nos aprisionam em um mundinho de mínimos referenciais culturais que miniaturizam nossa capacidade interpretativa da realidade.

 

Idiotas

Há algumas semanas, pela madrugada, alguns idiotas em um carro branco, por sua vez acompanhado por mais dois carros igualmente repletos de idiotas, pararam em frente ao meu prédio, do outro lado da rua, próximos ao canteiro central da avenida. Ato contínuo, um idiota meio baixinho e gordo, aos risos, desceu do carro e derrubou aos chutes uma árvore que estava seca, mas que em outras épocas do ano floresce. Quando ouvi a algazarra, corri para a sacada pensando que era algo sério, mas o que vi foi somente isso: idiotas que se acham melhores que os outros encenando idiotices na via pública.

Qual é a moral desses caras? Exibir seu caráter néscio aos amigos toscos enquanto o automóvel estufa uma música de péssima qualidade? O pior é que, pela lata do idiota dos chutes, não se tratava de um adolescente (não que isso seria desculpa, mas convenhamos que adolescentes, regra geral, são um tanto otários mesmo) – mas certamente um desses filhinhos de papai que julga que a cidade existe para ele e mais ninguém (e o resto que se exploda, já que seu mundo sempre é amaciado por futilidades).

Tomara que se esses idiotas, e especialmente o idiota baixinho e gordo que referi acima, forem atuar mais uma vez pelas avenidas da cidade ao derrubar uma árvore aos chutes (ou atitudes que o valham, pois de um idiota incapaz de pensar se pode esperar tudo), a dita caia na cabeça deles e provoque no mínimo uma fratura exposta.

Enquanto não entendermos o espaço público como local de convívio comum – e não como uma lixeira a céu aberto ou uma zona livre na qual se pode pavonear egoísmo –, permaneceremos semelhantes a esses idiotas: na minha casa, na minha sala, tudo OK, tudo zen, mas na rua, na calçada, no quintal do vizinho, o mundo se despedaça.

Eis um dos grandes problemas que enfrentamos: as pessoas não se consideram corresponsáveis por nada – um servidor público corrupto julga suas atitudes de pouco impacto, o cara que queima lixo no pátio acha que tanto faz como tanto fez, o motorista que sonega regras de trânsito só pensa em chegar ao seu destino e assim por diante.

Quando construiremos uma cultura de corresponsabilidades? Será que o mundo acabará tomado pelos idiotas – e as civilizações do futuro desenterrarão comprovações arqueológicas de que nosso tempo foi apenas um breve lapso de parvalhice na história humana?