Propaganda de margarina

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Houve um tempo no qual eu não gostava de festas de final de ano. Achava tudo aquilo muito com cara de propaganda de margarina. Mas acho que mudei. Consequentemente, ao menos nesse final de 2014, anseio pelas festas de final de ano. Não que ache que uma champagne vai mudar completamente os ânimos para 2015. Não que acredite em simpatias ou troços do gênero. Hoje, apenas, deixei de me importar com picuinhas que me desagradavam no passado. A vida tem problemas muito mais sérios para que fiquemos nutrindo pequenos vermes mentais que atrapalham todo o nosso cotidiano. Simplesmente não dá. Por isso me enervo com gente excessivamente detalhista, daquele tipo que quer tudo perfeito, redondinho e acabado.

Já fui assim para algumas coisas e atualmente, o que talvez seja desleixo, confesso, ajo desse modo para praticamente nada. Lembro que certa vez, depois de uma aula de português com o grande professor Jorge Fensterseifer, encasquetei que deveria escrever um texto que utilizasse apenas dois “que’s” em ligações frasais. E pior: o texto tinha que ter no mínimo duas laudas, fonte 10 e espaço simples. Demorei algum tempo para parir aquele escrito, mas o fato é que ele saiu. O resultado foi meio barroco, meio rococó, mas acima de tudo excessivamente chato, gordo de um juridiquês mirim que nem eu entendia direito.

Não dá para ser tão purista, reconheço e assino embaixo. Mas veja que utilizei a palavra “tão”, o que significa que não devemos jogar as pernas para o ar e deixar tudo ao deus-dará. Nada disso. Ainda que pareça e realmente seja um lugar comum do caramba falar do consumismo de final de ano, por exemplo, é necessário, para não dizer primordial, tocar nesse assunto. Da mesma forma, para reiterar o que sempre me acossa quando dezembro desponta, considero fundamental odiar músicas de Natal – principalmente quando cantadas com voz de gata no cio. Mas há que se atentar que essa segunda situação, especificamente, trata-se de uma birra boba, até interessante, digna de um senhor de monóculo com cara de sei-e-você-não-sabe-meu-filho.

O problema desses encasquetares é quando tomam conta do dia a dia e se tornam uma espécie de TOC – coisa que já tive, mesmo que em grau infinitamente mais baixo que alguns amigos. Pode um adolescente, na casa dos 12 anos, não conseguir dormir sem encostar a perna na parede e sem bater com o pé nessa mesma parede 12 x 3 – ou seja: 36 vezes? No patamar dos meus 30 anos, digo sem titubear que não pode, admitindo, porém, que esse cara aí de cima, evidenciado por este ritual absolutamente ridículo, sou eu há pouco mais de uma década.

Desse tempo e seus ritos – incluindo a mania de dormir com o colchão no chão por alguns meses, quando tinha 8 anos –, guardo somente a sensatez de levar uma garrafa d’água para o lado da cama. Aquela coisa de pé na parede e 36 batidas não existe mais – e se existisse, acho que não escreveria sobre isso, pois certamente consideraria algo de íntima importância (boba) para mim.

As pequenezas da vida, enfim, são importantes, desde que não nos deixemos consumir por elas quando possuem aquele aspecto ranzinza e ranheto. Comprar presentes de Natal é legal, encher a cara com os parentes é melhor ainda – e dar valor para tudo isso é essencial. No fechamento das contas do ano, vejo, olhando para essas linhas que escrevi, que não mudei tanto assim: somente refinei minha sensibilidade e minha paciência – chegando à conclusão de que no fundo, bem lá no fundo, não tão fundo para quem tem a coragem e a desfaçatez de encarar a própria face no espelho, todos gostariam de ser protagonistas de uma propaganda de margarina.