Puberdade de UTI

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Pode parecer clichê dizer que vivemos tempos estranhos. De fato, antes que bradem que versejo lorotas, é clichê. Mas o que pensar de uma época na qual um astro teen do porte de Justin Bieber fala que encerrará sua carreira no auge dos seus dezenove anos? É algo que nunca entenderei.

No meio desse banzé, porém, vejo, meio de soslaio, uma juventude que traz intenções de sair do armário. Originalmente recatada, imersa nos prazeres de um consumismo antropófago cujos ares de felicidade se resumem a nada, começa a perceber que alguma coisa não cheira bem no Reino da Dinamarca – para lembrar do saudoso Hamlet de Shakespeare.

Para essa juventude, que no ano de 2013 saiu às ruas com uma pauta de reivindicações que se desfez feito um picolé no sol, tal qual a canção clássica de Nico Nicolaiewsky, é que abaixo segue um poema que escrevi há mais ou menos oito anos, creio eu. Os versos em questão já tiveram dois títulos: “Guaxo ao chegar” e “Retrato de massa falida”. Mas hoje resolvi rebatizar os ditos: “Puberdade de UTI”.

Portanto, seguem minhas mirradas rimas.

É Comuna ressabiado que não segue o riscado de qualquer Camarada.
É Trotsky meeiro entre um mural de Siqueiros e a soda da criançada.
É ativista passivo, sem gota de busto altivo ou coloradas vestes.
É reles sonhador, covarde em seu Equador, anti-tributo à Prestes.

É rasura de si, é sempre o mesmo fim, é orgia e Planalto.
É imunda prostituta, é aquele que é truta e cruza os braços num auto.
É só comiseração, Arara da Humilhação, mais Collor do que Guevara.
É um tal de I don’t no, mirrado num please don’t go, credor que estupra e ampara.

É facho de esperança em raquítica criança às margens de certo Altar.
É grito retumbante que habita sua estante – todo Médici em seu ar.
É Presidente Eleito num coração rarefeito que mastiga sofrer.
É Cabeça da Boca, cheirado e porraloca, plinplin no modo de ver.

É ex-tropicálio usado, Brás Cubas acorrentado na Disney da dissonância.
É lágrima de Henfil, imigrante do frio, el fuego de su estância.
É cria da parabólica, é marginal bucólica, é Glauber que não é rocha.
É mais tiví que tevê, é quem breca o auê, é quem não leu mas atocha.

É do sul e do norte, é estatística e morte em filas à la Coimbra.
É gramático incorreto, é de um grupo seleto que se borra e melindra.
É sonho devastado, cachaceiro e mau-olhado, é lamento perdido.
É dia que amanheceu, é Mãe que esqueceu do Filho e do Partido.

Mas é couro que resiste,
é mar que insiste,
é quem quebra pena e tinteiro.

E é quem têm as forças (e por isso têm as palavras)
para destruir todas as travas
e um dia se ver inteiro.