Pulsão de morte e descarga

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Pulsão de morte
É impressionante o quanto as pessoas não se sentem responsáveis pelas repercussões coletivas das suas atitudes individuais.

Peguemos a questão do lixo.

Grande parte das cidades brasileiras não possui coleta seletiva e consequentemente reciclagem – e se possuem, geralmente um percentual ínfimo do lixo produzido é reaproveitado ou direcionado para a compostagem.

Existem até mesmo municípios que na tentativa da implantação de sistemas de coleta seletiva e reciclagem, sofrem com o completo descaso da população que somente quer desviar o olhar daquilo que não é cômodo.

Mas quando surge o debate sobre o assunto, os “opinudos” falam que isso é culpa do prefeito, do bispo, do cachorro da vizinha, mas nunca da sua escassa preocupação com o futuro – que irá se refletir diretamente na vida dos seus filhos, por exemplo.

O pior é que a maioria das empresas que dizem adotar políticas de responsabilidade social age de forma idêntica – proporcionando a replicação de um discurso predatório absolutamente infame.

Continuaremos tapando o sol com a peneira, achando que nada temos a ver com a água, com o solo, com a atmosfera – e demonstrando anseios ambientais apenas quando a situação estiver próxima do puro caos?

Às vezes penso que agimos coletivamente como um sujeito autodestrutivo: sabemos que as coisas estão erradas e, para não sairmos da nossa zona de conforto, do mundinho construído por nossa viseira de cavalo, fazemos de tudo para travar possibilidades de mudança a partir de um lento e gradativo processo de suicídio.

Pulsão de morte planetária, muito certamente.

Não é à toa que o crack é a droga que representa nosso atual estágio civilizatório zumbificado pelo consumo e principalmente pelo egoísmo.

A Cracolândia é nosso espelho: suja e repleta de indivíduos que não conseguem abdicar do círculo vicioso de uma rotina alucinógena que invariavelmente antecipará seu fim.

O lixo nos representa – e traduz nosso caráter.

Descarga
Nacionalismo, bairrismo e corporativismo, traduzidos na síndrome de “vestir a camisa”, seguindo os ares da manada, tipo boi de canga, apanhando quieto e achando que a sova é afago, são sintomas de que o cidadão pode enfiar a cabeça na privada e puxar a descarga.

P.S.: Aliás e em tempo, já que a Copa passou e o país retomou os trilhos da triste mesmice, do jeito que andam as opções políticas tatuadas na cabeça da maioria, falar que “protesto é na urna” é o mesmo que dizer que “vai xingar muito no Twitter”.