Purê

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Até onde me consta, já que não sou perito em anatomia humana e muito menos em medicina, o cérebro de todas as pessoas é igual. Claro que fatores como o peso da massa encefálica ou mesmo a falta de uma nutrição adequada na infância devem influenciar em algo. Mas via de regra, digamos assim, a partir de uma visão absolutamente leiga, todos trazem as mesmíssimas pregas cerebrais no crânio. Se é desse modo, portanto, os cérebros de Einstein, de Beethoven, de Machado de Assis, de Stanley Kubrick e de Da Vinci, por exemplo, possuíam contornos iguais ao meu e ao seu. Então me surge a pergunta: por que não usamos esse incrível maquinário biológico para algo com verdadeira relevância?

Penso nisso depois de acompanhar, durante a última semana, um alarde sem fim sobre a prova do Enem. Professores dando dicas de relaxamento e de concentração, alunos em polvorosa com a avaliação e todos, sem exceção, totalmente transtornados com a redação que terão de redigir. Aliás, chega a ser engraçado quando você vê caras daqui e dali chutando possíveis temas que poderiam ser propostos e dizendo que o importante é que o aluno esteja antenado com as “atualidades” – seja lá o que signifique essapalavra. Ora, qual o motivo de tanto grito se o Ensino Médio tem o objetivo de fazer com que o indivíduo saía de seus bancos com a mínima capacidade discursiva e reflexiva construída a partir do conhecimento geral que proporciona?

Aí é que está a questão. Se você tem uma geração que se acostuma a escrever apenas em teclados virtuais a partir de um linguajar absolutamente ininteligível para seres jurássicos como eu, o que esperar da escrita dessas criaturas? Mais ainda, se essa mesma geração resta caracterizada pela preguiça e pela torpeza mental, como almejar que a escola, simplesmente, possa transformar esses sujeitos? Não dá. Nenhuma educação é plena se restrita àquilo que é vivenciado pelos alunos no meio escolar – o que explica, de uma maneira absolutamente óbvia, o pavor diante da prova de redação do Enem.

Para que o indivíduo construa um cardápio interpretativo do mundo, não bastam os livros escolares e a voz dos professores – isso é pouco, demasiado pouco. É necessária dedicação e sobretudo curiosidade, pois quem não traz consigo a capacidade de se espantar e buscar respostas para esse espanto, nunca conseguirá aprender algo fora das linhas da pura técnica. Esse cardápio do qual falo, para surgir, exige do sujeito uma atitude ativa diante de tudo aquilo que o rodeia. Não sabe como escrever o nome de um autor? Procure no Google – mas não passe vergonha no WhatsApp. Não sabe o significado de impeachment? Leia a Constituição e se informe, nem que seja basicamente, sobre Ciência Política e Direito Eleitoral – mas não se restrinja àquilo que o amigo de um amigo disse em uma mesa de bar.

O pior é que hoje, com a facilidade de acesso à informação, não existe desculpa para o camarada se fazer de desentendido. Se dados de 2014 coletados pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br) apontam que 32,2 milhões de domicílios brasileiros estão conectados à internet, totalizando 50% das casas conectadas, e em torno de 81,5 milhões de pessoas acessam a internet no Brasil via smartphone, como se fazer de bobo? Não é possível, porque ainda que você tenha preguiça de desbravar grossos volumes nas mesas das bibliotecas, a internet está aí para fornecer informação e cultura a todos. Toda desculpa que você invente pode ser descartada com um clique.

O que acontece é que as pessoas estão tão absortas no excesso de informação que não sabem o que fazer. Surfam para um lado, escorrem para o outro – e no final das contas acabam nutrindo seu cérebro com coisas inúteis na maior parte do tempo. Isso de ficarmos conectados incessantemente, em vez de nos fornecer subsídios para de fato nos tornarmos seres mais conscientes e minimamente inteligentes, está fazendo com que nos transformemos em meros replicadores de bobagens. A evidência disso é que basta um canalha divulgar uma notícia fake com ares de escândalo em alguma rede social, que em dois toques meio mundo já considera que aquela fonte é fidedigna e tudo vira uma grande lambança.

Quando eu tinha oito anos e morava em Curitiba, um dos meus sonhos de consumo era ter uma Enciclopédia Barsa. Achava aqueles livros lindos e sinceramente pensava que todo o conhecimento humano se encontrava naquelas páginas que eu tinha ânsia por devorar. Hoje, você não precisa ter aqueles livros grossos e vermelhos na sua estante: basta ter acesso à internet que tudo está ali. Mas o que reina é a preguiça e a vontade de saber tudo sem esforço ou dedicação. Resultado? Acabamos por fazer com que o nosso cérebro, com textura e possibilidades de conexão exatamente iguais àquelas que os grandes gênios possuíam, torne-se um gelatinoso purê sem serventia afora as funções da reprodução e da alimentação. Você não sente vergonha disso? Eu sinto.