Quer porque quer

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Antigamente, costumava anotar ideias para escritos em cadernos, guardanapos ou em qualquer papel que estivesse na minha frente. Lembro que no Tempo da Internet Discada, especificamente naquele período terrível da adolescência, consumido, como de praxe, pela insônia, lotava páginas e mais páginas com apontamentos que um dia pretendia ver tornados algo maior. A maioria daqueles lampejos não frutificou e permaneceu natimorto em sua essência – mas quero acreditar que em algo isso contribuiu para a construção desse que sou hoje, ainda que tal auxílio tenha se dado de formaextremamente desorganizada.

É nisso que penso ao tentar escrever esse texto após ter ficado mais de um mês sem traçar mínimas linhas. A desculpa para tal lapso, como falei em dezembro, foram as férias – as quais, não posso negar, transcorreram de modo bacana (masrápido demais). Naquelas semanas de descanso,armei guarda diante da preguiça e procurei montar um bloco de notas no celular com frases que possivelmente serviriam como estopins para mais ou menos cinquenta artigos. Mas a sensação que tive, hoje pela manhã, ao revisar minhas anotações, foi a de que simplesmente não sei sobre o quê ou quem escrever.

Claro que poderiapegar o show do David Gilmour que assisti na Arena do Grêmio no dia 16 de dezembro do ano passado e escrever parágrafos recheados de adjetivos para aquela experiência. Ou poderia, por outro lado, falar dos argentinos e paraguaios que invadiram as praias de Santa Catarina para escutar enjoativas cúmbias na beira do mar. Em uma esteira mais nojenta, seria um pouco engraçado dissertar sobre uma virose que me acometeu nessa semana praiana – fazendo com que eu me tornasse um monarca do banheiro e me sentisse completa e totalmente acabado por quase 48 horas. Mas agora, sentado em frente ao computador com uma caneca de café ao lado, noto que, ao menos nesse momento, nenhuma dessas temáticas me seduz.

É meio frustrante essa constatação – e certamente indica alguma inépcia desse humilde colunista. Mas o fato é que, diferentemente daquelas pessoas que escrevem textões de Facebook da noite para o dia, não me sinto confortável em pincelar digressões sobre assuntos acerca dos quais não consegui refletir minimamente. Sempre encarei o espaço de um jornal como um espaço público que exige algumas nesgas de responsabilidade, seja com o mote do escrito ou com o posicionamento defendido, de maneira que não me apraz forçar as palavras em torno de um núcleo que nesse instante não me direciona nenhum desejo parcamente organizado.

É importante falar em organização, racionalidade e responsabilidade nesse tempo que vivenciamos, principalmente quando tais palavras deveriam ser o lastro de toda e qualquer voz que se queira digna de tempo no espaço público. Digo isso, porque o que cotidianamente presencio em conversas, nas redes sociais ou mesmo estampado em jornalões desse Brasil, são manifestações de posições que antes de estarem ali, disponíveis aos olhos e ouvidos de todos, não passaram pelo crivo do bom senso e da racionalidade. Parece que as pessoas, ao se sentirem “autorizadas” a dizer o que pensam, esqueceram que nem todas as opiniões devem vazar para a rua – e nem tudo aquilo que discorrem com amigos em mesas de bar, pode resultar em uma porção de palavras que serão propícias para a emersão de algo benéfico para a sociedade.

Esse “fatalismo opinativo”, o qual exige que ninguém fique em cima do muro quanto a qualquer manchete, não nos faz nada bem. Entendo que se trata de um sintoma da nossa época, prenhe de velocidade e urgência, mas também vejo que se seguirmos nessa senda por prazo indeterminado, as consequências não serão benéficas para nenhum de nós. Precisamos perceber que uma manifestação política sobre o impeachment materializada na hashtag “#foraDilma”, não é algo simples e passível de ser escrito sem qualquer reflexão, por exemplo. Necessitamos também da compreensão de que berrar pela pena de morte diante de qualquer assassinato que ocorre no país, referindo que as mazelas do Judiciário brasileiro seriam resolvidas sem pestanejares caso tal prática fosse levada a cabo, não significa absolutamente nada além de pura e absurda infantilidade. Convenhamos que agir como criança que quer porque quer porque quer, só é bonitinho e cabível quando se é criança.

Assim como meus rabiscos à lápis nos cadernos dos catorze anos permaneceram como rabiscos à lápis nos cadernos dos catorze anos, jamais saindo daqueles invólucros de papel, acharia legal que o povo pensasse um pouco antes de montar um canal no YouTube ou referir que todo aquele que não segue tal ou qual religião irá queimar no fogo do inferno. Embora a democracia tenha como qualidade intrínseca a possibilidade da propagação dos mais diversos pensamentos, sem organização, racionalidade e responsabilidade algumas ideias nunca deveriam sair da cabeça atabalhoada dos seus mentores. Ninguém é obrigado a presenciar fascismos travestidos de bom-mocismo ou arcaísmos argumentativos like a Idade Média que se querem salvadores da pátria. Consciência e maturidade não são doenças, mas curas.