Questão de escolha

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Quando escolhi ser professor, jamais pensei na questão financeira. Quem decide por essa carreira, certamente não enxerga as coisas por esse lado. É impossível se tornar milionário sendo professor. Existem alguns acadêmicos que alcançam certa notoriedade, é verdade. Mas o profissional da educação que realmente detém a consciência do seu papel social, com certeza não tem o dinheiro como maior pretensão em seu trabalho diário.

Escolhi ser professor porque sou idealista. Ainda que o cotidiano me diga que tudo é do modo que é e que jamais poderá ser diferente, acredito que uma mudança pode advir da transformação do ser humano através da educação e da cultura. Quando me posiciono em uma sala de aula, procuro dar o meu máximo, mesmo que saiba que as atribulações diárias por vezes me impeçam de encontrar o aluno da forma como gostaria.

Por esses motivos, acho extremamente deprimente ver o quanto a figura do professor é deturpada nos dias de hoje. Parece que o ensino, antes de crer na efetiva possibilidade de transformação, está rumando para um norte totalmente técnico que nada faz além de construir pessoas para o mercado de trabalho. Concordo que a formação profissional é essencial. Ninguém vive sem sustento. Mas focar toda essa formação em apenas uma direção, como se o conhecimento humano fosse somente um meio para atingir sucesso na engrenagem mercadológica, é algo com o que não posso e não vou concordar.

Uma das razões que levam a isso certamente se encontra na má remuneração dos professores. No ensino superior, como é o meu caso, a remuneração é digna. Mas quando olho professores do ensino médio e fundamental, seja de escolas públicas ou particulares, percebo que muito do desinteresse que esses profissionais trazem por suas carreiras provém da sua desvalorização. O fato é que todos falam que a educação é essencial para a sociedade. Mas a realidade é que não há o devido apreço político pela educação, de maneira que ela se torne uma porta para a efetivação dos direitos de cidadania.

Creio que muito disso ocorre em virtude da passividade do povo brasileiro. Toleramos tudo, absolutamente tudo. Vez ou outra, nutrimos alguma comoção com fatalidades inimagináveis ou com a ocorrência de um crime que choca a construção histórico-cultural da nossa moralidade. Mas inseridos em uma estrutura social que se mantém a partir da lógica do favorecimento, na qual o status do indivíduo é que determina sua gradação na engenharia da sociedade, acabamos por nos beneficiar da hipocrisia e sustentar a argamassa de um país que se não mudar a partir dos indivíduos, a partir de um cenário microcósmico, nunca irá se transformar na promessa de futuro que desde o início carregamos como pecha essencial do “ser brasileiro”.

Por isso é que quando entro em uma sala de aula ou mesmo escrevo textos como este, procuro sempre injetar na palavra escrita e falada o gérmen da possibilidade de mudança. A cultura transforma, a educação edifica, o conhecimento abre portas que em outras oportunidades jamais pensaríamos existir. É triste quando se nota, porém, o desinteresse da juventude por questões tão fundamentais como o cenário político nacional e internacional. Mas mais triste ainda é ver que certos profissionais da educação, engessados em um modelo pedagógico cimentado unicamente pelo caráter técnico, destoam do personagem de transformadores sociais que são.

Acredito no ser humano e não abro mão. Não sei se somos bons naturalmente ou coisa parecida. Mas tenho a certeza de que o conhecimento é o rumo que pode nos levar à superação de tantas e tamanhas dificuldades atuais. Podemos não representar nada ao nível cósmico. Afinal, habitamos um planeta qualquer que orbita uma estrela em um braço insignificante da Via-Láctea – estrela que é apenas uma dentre as 100 bilhões existentes na nossa galáxia (que, por sua vez, é uma das 100 bilhões de galáxias conhecidas). Mas quando imagino essa cena, também imagino que a humanidade produziu a 9ª Sinfonia de Beethoven. Penso na solidão do nosso planeta ecoando para o Cosmo a união de todos os seres em prol unicamente da vida. E é esse grito mudo, sufocado pelo vácuo, que me leva na direção da profissão que escolhi, a qual se manifesta, quer para o bem quer para o mal, em todas as horas da minha vida. Quem pretende ser professor, deve professar – e de um modo ou de outro, é isso que direciona minha existência.