Quietude e estranheza

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Quietude

Não entendo essa galera que fica procurando cabelo em ovo e se estressando por picuinhas. Certo que existem muitos problemas e sempre haverão inúmeras atitudes equivocadas ou mesmo desprezíveis. Mas isso não é motivo para criar pedras nos ombros.

É como digo há anos: diante da imensidão cósmica, tudo o que sentimos, pensamos e vivemos não detém qualquer significado. Passaremos pelo Universo como um clarão entre dois nadas, para parafrasear Sartre. Nesse meio tempo, negócio é manter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”, como cantava Walter Franco.

Então o bom é não encarar chuvinhas como temporais e não enxergar capivaras no lugar de camundongos. Pacificar, acima de tudo, é a linha que devemos seguir.

Às vezes é difícil? Claro que é. A imbecilidade é endêmica nesse povaréu terráqueo. A maldade, idem. Mas sempre existirão motivos para olharmos para o lado e nos depararmos com as coisas boas que estão conosco e sequer chegamos a perceber.

Nessa vibe, legal é dizer “deixe estar” e tentar fazer o máximo para melhorar a realidade ao nosso redor com calma e humor. Do contrário, pareceremos aquela professora frígida da sétima série que fazia com que nos sentíssemos um lixo humano.

Bola pra frente e cerveja no copo, minha gente. No mais, dá-se um jeito.

 

Estranheza

Quando começo a pensar na quantidade de sistemas nos quais estamos enredados, vejo que existe algo de muito estranho nisso tudo.

Primeiro existem os sistemas estatais, para os quais somos traduzidos como números. CPF, RG, Título Eleitoral, Declaração de Imposto de Renda e o escambau. Logo abaixo, os sistemas profissionais, os quais, dependendo da nossa ocupação, urgem uma alimentação contínua, qual monstrengos insanos, para que possam sobreviver. Planilhas, estimativas, lançamentos, apontamentos, observações e sabe-se-lá-mais-o-quê.

Talvez na sequência, os sistemas culturais e sociais, os quais nos cobram submissão ao seu ideário. Família, amigos, colegas e até mesmo a tia da padaria da esquina.

Tudo isso, quando somado, resulta em uma megaestrutura da qual o tamanho exato não temos a menor noção. Não que não seja algo necessário: até certo ponto, é – e demais, poderia dizer. Mas cadê o espaço para a liberdade, para o ar fresco, no meio de tantas engrenagens que condicionam as horas da nossa vida?

O ser humano contemporâneo parece um bicho mergulhado até a última raiz de cabelo em compromissos e afazeres – soltando-se dos mesmos em raros períodos de prazer, considerando que estes, embora essenciais, por vezes são vistos de “favores” que os atores que controlam alguns sistemas acabam por conceder aos reles mortais. Parece senso de escravo: trabalha-se das seis da manhã às dez da noite sob as chibatas da casa-grande, mas nos finais de semana é possível fazer festa na senzala.

Daí, trazendo esse catatau para suas múltiplas implicações que de modo algum podem estar contidas nesse pequeno comentário, esses mesmos seres humanos, quando desatados de algum desses sistemas – digamos, do profissional –, adentram em cenários de tédio, por exemplo – tal qual acontece com o camarada que fica perdido ao entrar em férias. O brabo é quando sequer nos damos conta dessas correntes, achando que seus grilhões, se muito, causam algum aperto nos tornozelos e certo desassossego nos ombros – estes plenamente resolvíveis por meio de uma cerveja na sexta-feira.

Diante disso, não sei se a liberdade ainda é uma das nossas aspirações coletivas, já que cada vez mais fugimos dos seus braços, quer conscientes ou inconscientes dessa fuga. Quem sabe, no frigir dos ovos, sejamos como aquelas formigas que criam passagens e grutas em alguns aquários cheios de terra, vivendo e morrendo nesse ambiente, sem saber que poucos metros longe do seu viveiro existe um mundo a ser desbravado.

Pelo sim e pelo não, fato é que sempre acharei esse mundo absolutamente estranho.