Rapidinhas

0
112

1.
Tudo aquilo que ignoramos não existe para nós e por isso o Universo de cada um é do tamanho daquilo que sabe, constatou Einstein. Mas quando a ignorância, seja científica, filosófica, cultural, jurídica ou política, por exemplo, é preservada e fomentada pelo medo, o resultado não será outro a não ser o ódio.

2.
Ninguém é predestinado a nada, ninguém é especial em nada, ninguém é importante ao ponto de justificar a morte de outras pessoas, não existe nenhuma força que torce pelo sucesso ou pelo fracasso de alguém e ninguém sabe se acontece algo após o nosso fim a não ser a mera decomposição do corpo. Pensar que o Universo foi criado para nós é algo de uma arrogância absurda – assim como é arrogante pensar que existe um “livro do destino” ou algo assim. A natureza não possui obrigação com nenhum significado – e cogitar que possui, é agir como uma criança que imagina exércitos e guerras ao brincar com os seus soldadinhos. Somos insignificantes ao nível cósmico e o acaso nos colocou juntos nessa bolota de terra e metal que é nosso planeta. Reconhecer esse quadro é o princípio de todo e qualquer senso fraterno que se pretenda construir a partir de uma perspectiva humanista. Simplificando, precisamos aceitar nossa pequenez para deixarmos de ser tão pequenos. Como diz Sagan, nenhum “salvador” pode nos salvar de nós mesmos.

3.
Sabe quando você tá sentado há um bom tempo, levanta e fica tudo escuro, cheio de manchas pretas no campo de visão? É mais ou menos isso que acontece com boa parte do pessoal que jamais discutiu e estudou política na vida e saiu do armário atualmente: todo mundo perdido, tateando em busca da embalagem ideológica que melhor se encaixe em suas mãos e nada mais. Mas quando esse mesmo povo se atraca a falar sobre direito ou temas conectados à sociologia, o estrago está feito – ainda mais em um contexto no qual as pessoas se sentem plenamente autorizadas a discorrer sobre aquilo que desconhecem.

4.
“Quando um animal está morrendo, ele tende a atacar”, diz Richard Dawkins em um trecho do documentário “The Unbelievers”, disponível na Netflix. Talvez isso explique o ressurgimento atual dos nacionalismos e dos fundamentalismos, sejam políticos, religiosos ou morais, os quais sempre se mostram violentos, seja no sentido físico ou discursivo: estão tão, mas tão perto do fim, que por isso esperneiam tanto, cometem tantas atrocidades e proferem tantas bobagens. “Thisistheend, myonlyfriend”, falaria Jim Morrison – e eu complemento: larga de mão do século XIV e vêm pro século XXI, meu chapa.

5.
Textos curtos, ideias curtas, memória curta, férias curtas e olhar curto. Sensibilidade curta, imaginação curta, paixão curta, empatia curta e canções curtas. Almoços curtos, viagens curtas, filmes curtos, diversões curtas e sorrisos curtos. Responsabilidade curta, paciência curta, conversas curtas, atenção curta e relacionamentos curtos. Descanso curto, cultura curta, inteligência curta, explicações curtas e confiança curta. Palavras curtas, perguntas curtas, crenças curtas, livros curtos e dias curtos. Amizades curtas, sono curto, distâncias curtas, tolerância curta, convivência curta e tempo curto.
Já repararam que quanto mais diminuímos em tudo, mais nossos problemas aumentam?
Quanto mais curtos, menos plenos – e em curto-circuito.