“Reacionários” e “revolucionários”: breve ensaio sobre a “adolescência política

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A diferença básica entre o “reacionário” e o “revolucionário”, é que enquanto o primeiro acredita que o potencial humano máximo foi alcançado em algum momento passado, o segundo acredita que o potencial humano máximo será alcançado em algum momento futuro. Se o “reacionário” mira no “ontem”, o “revolucionário” mira no “amanhã”: se o “reacionário” pretende “um retorno”, o “revolucionário” pretende “uma chegada”. Tratam-se, enfim, de concepções extremas divididas, fundamentalmente, por noções temporais distintas acerca da potencialidade humana.
Normalmente, o “reacionário” trará à tona a necessidade de uma “retomada de valores para a preservação da sociedade”, considerando-se que, diante das incessantes mudanças históricas, sente-se à margem desse processo, desejando, portanto, freá-lo de alguma maneira e, ao mesmo tempo, proporcionar “um retorno” a determinado momento passado no qual julga que a potencialidade humana máxima foi alcançada. O “revolucionário”, pelo contrário, trará à tona a necessidade de uma “transformação de valores para a preservação da sociedade”, considerando-se que, diante das incessantes mudanças históricas, sente-se à margem desse processo, desejando, portanto, acelerá-lo de alguma maneira e, ao mesmo tempo, proporcionar “uma chegada” a determinado momento futuro no qual julga que a potencialidade humana máxima será alcançada.
Ocorre que não há “amanhã” sem “ontem” e não há “ontem” sem “amanhã”, de modo que o “revolucionário” não existe sem o “reacionário” e o “reacionário” não existe sem o “revolucionário”, levando-se em conta que, quando há a preponderância de um ou outro em determinado momento histórico, certamente estaremos diante de um momento de ruptura. No Brasil contemporâneo, porém, vivemos uma situação singular, visto que até pouco tempo não se viam, em tão nítida proporção e diferenciação, “reacionários” ou “revolucionários”, embora eles sempre tenham existido. A partir das “Jornadas de Junho de 2013”, o espaço público democrático, pela primeira vez na história do país, foi de fato completamente tomado por uma amorfa vontade popular saída do armário – que, aos poucos, foi criando formas e deu origem ao cenário que hoje visualizamos em todos os locais. Os gritos de 2013, para focar novamente em uma questão temporal, foram as “crianças” que se transformaram nos “adolescentes” de 2016.
Como convém aos “adolescentes”, denominação aqui utilizada em um sentido completamente metafórico, estamos cheios de dúvidas. Mergulhados em um turbilhão contínuo de informações, em uma democracia que não se dá apenas nos espaços clássicos criados pelo Estado, mas se dissolve em múltiplas camadas e fronts sociais, procuramos, desesperadamente, uma identidade em meio a esse caos. O grande problema, contudo, é que, ansiosos como estamos, corremos o risco de encaixar nossas expectativas em qualquer discurso que se mostre minimamente de acordo com os nossos desejos, refletindo, nesse encaixe, nossa frustração pessoal e profunda por nos sentirmos, quer “reacionários” ou “revolucionários”, marginais no curso da história. A racionalidade e o diálogo, fundamentais ao desenvolvimento de qualquer ordem democrática, dão lugar para a simples “aparência”, bastando que alguém nos ofereça a mínima segurança, quer para o “ontem” quer para o “amanhã”, para nos devotarmos, sem qualquer resquício crítico, a esse discurso.
Existe um meio termo? Não só um: vários. Entre o “revolucionário” e o “reacionário”, há uma infinidade de posições possíveis. Mas quando o avassalador trem da história aparece desnudo diante dos nossos olhos, a tendência é que, quer queiramos quer não, nossa percepção caia mais para um lado ou outro, mesmo que também possa mesclar caracteres de um e outro oposto. Trata-se de algo que já ocorreu em outros lugares e em outros tempos, ressaltando-se que a tensão da disputa por terreno político, de forma invariável, sempre resultou em mudanças. Mas caso não pensarmos e principalmente conscientizarmos os problemas da nossa época, avaliando, da forma mais criteriosa possível, as razões para tendermos a um ou outro lado, não sairemos, de nenhum jeito, da nossa condição de marginais – e aquela potencialidade máxima humana, que alguns julgam estar no “ontem” e outros creem se encontrar no “amanhã”, jamais passará de algo mais que um sonho.
O conflito é bom? Obviamente. O debate é necessário? Sem sombra de dúvidas. Mas conflito e debate sem consciência da sua posição, costumam resultar em uma apropriação de potencialidades por parte de terceiros – ou seja: inscientes da nossa condição e crentes em discursos que apenas nos parecem razoáveis, daremos o poder, que está em nossas mãos, a aproveitadores que, utilizando-se dos nossos desejos e frustrações, não farão nada mais que nos enganar a partir da venda de uma ilusão de segurança.
A pergunta que fica é a seguinte: quando e como sairemos dessa “adolescência política”?