Refilmagem

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Quando alguém fala que fulano ou cicrano rouba, mas faz, assim mesmo, com ênfase no conteúdo entre vírgulas, posiciona a suposição da eficiência na frente da integridade moral do indivíduo. Ainda que muitas pessoas, acredito, tragam consigo tal dizer por completa pirraça ou pura desilusão, sua proliferação faz com que vejamos algo nítido: a colonização da política pela lógica de mercado. Ou seja: não interessa a bandeira, o projeto ou coisas que o valham – interessa a satisfação dos interesses do cliente (que, nesse caso, é o eleitor).

Esse cliente, afetado por ânimos consumistas, quer seu desejo atendido o mais rápido possível, não importando o custo dessa prestação de serviços. Se tal dinâmica se der, o fato de uma roupa X ou Y ser fabricada com o uso de trabalho escravo, por exemplo, não significa absolutamente nada. Retomando: interessa a satisfação. Acontece que, quando você adiciona a essa equação uma sociedade assolada pela insegurança em todos os seus liames existenciais, a situação se agrava. “Como confiarei em mudanças se nem o que está aí funciona?”, pergunta-se o nosso cidadão de bem.

Isso explica termos eleito a bancada legislativa mais conservadora desde 1964, segundo levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). As manifestações de junho de 2013, em vez de promoverem um furacão em velhos conhecidos da Câmara Federal e das Assembleias Estaduais, surtiram efeito reverso: “Se tudo está errado, não adianta mudar – então que fique como está”, pensaram muitos brasileiros. Alguém pode argumentar que as intenções de mudança se espelham no duelo entre PT e PSDB no segundo turno presidencial. Mas uma leitura minimamente atenta revela claramente que, entre os candidatos que representam tais partidos e suas respectivas propostas, simplesmente não temos escolha: é isso ou é isso.

Em vez de afirmar nas urnas em 2014 sua intenção de superar o binarismo partidário vivenciado pelo País há mais de 20 anos, o eleitor reiterou a polarização política e deu carta branca para a reafirmação de tudo quanto está aí. Não pense que a perpetuação do PT no governo federal ou o giro para o PSDB mudará algo. Os atores podem até ser outros, com olhares e trejeitos diferenciados – mas o roteiro, que é o que realmente importa, será absolutamente igual.

Politicamente, portanto, o segundo turno presidencial equivale à refilmagem de um grande clássico conhecido por todos há mais de uma década. Se isso não é o suficiente para averiguar o grau de entranhamento do pensamento binário no Brasil, não sei o que é. Possuíamos opções diferenciadas no primeiro turno, algumas interessantes e outras insanas. Mas, no hall dessas escolhas, abrimos a porta de sempre para encontrar quem já sabíamos que estava ali.

Temos responsabilidade por esse triste palco? Em parte sim e em parte não. Sim, porque quando falamos de mudança, falamos apenas da boca pra fora – e queremos, no mais das vezes, apenas trabalhar e levar nossa vida em paz. Não, porque não há como agir diferente sem correr o risco de receber um atestado de idiota em um mundo construído sob o signo do mercado, do consumo e da eficiência – o que faz com que tenhamos medo de arriscar para perdermos tudo aquilo que supostamente conquistamos, exatamente como funciona na lógica empresarial clássica. Há tempos deixamos de ser cidadãos para nos tornarmos consumidores – e, com veemência, afirmamos exatamente essa identidade nas urnas em 2014.

“The dark side of the moon is real”, diria Roger Waters.