Resposta

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Já vi e ouvi muita coisa nesses nove anos como professor. Em inúmeras oportunidades, fiz papel de confidente, conselheiro e até ajudei a resolver brigas de casal. Faz parte. Mas esses dias, as palavras de um ex-aluno me tocaram bastante. O sujeito falou que sofre com um sentimento de inferioridade gigantesco, muito em razão do abandono afetivo pelo qual passou na infância. Disse que isso prejudica sua vida pessoal, profissional e até seu rendimento acadêmico – e, por conta disso, resolveu me pedir ajuda, pois enxerga em minha personalidade uma parcela da pessoa que gostaria de se tornar.

Fiquei encucado. O que deveria falar? Dizer para ele buscar auxílio psicológico e formular algumas considerações sobre a situação? Mais que isso, como alguém como eu, cheio de incertezas e inseguranças, poderia se colocar em uma posição que resultaria em frases que afetariam em algo a vida daquela pessoa? Trata-se de uma condição complicada, plena de desconforto e que exige uma régua moral mais ou menos precisa. Mas, como professor, percebi que era minha obrigação falar algo.

Pensei primeiramente no fato de ele ser um acadêmico do Curso de Direito. Segundo dados do IBGE divulgados no início de 2015, 16% dos trabalhadores brasileiros possuem ensino superior completo, sendo que três em cada dez trabalhadores sequer concluíram o ensino fundamental. Portanto, o simples fato de você ter a possibilidade de cursar uma faculdade, por mais difícil e custoso que seja conciliar, no mais das vezes, trabalho e estudos, faz de você um vencedor no contexto da imensa desigualdade que existe no Brasil. Mas esse triste dado faria o meu ex-aluno se sentir melhor ou ao menos buscar forças para enfrentar o seu problema? Tenho certeza que não.

Foi então que algumas recordações apareceram. Lembrei do quanto era tímido e retraído quando criança e de como isso se modificou com o transcorrer do tempo. Lembrei das infindáveis crises que passei na adolescência e de como foi difícil conquistar alguma estabilidade na vida adulta. Nesse emaranhado de sensações nostálgicas, percebi que o modo como me constituí como quem hoje sou não traz nenhuma receita de sucesso e nenhuma bula para a felicidade. Traz, por outro lado, uma tentativa contínua e intermitente de alcançar alguma coerência entre agir, pensar e falar – sendo que essa é, certamente, uma das grandes verdades sobre mim que não tenho o menor receio de expor.

Desde cedo, notei que a linguagem é o principal componente da vida humana. As palavras que você utiliza no dia a dia são as responsáveis por você ser quem você é. Não falo apenas das palavras que você de fato verbaliza na comunicação com as demais pessoas. Falo, sobretudo, das palavras que você usa para se comunicar consigo mesmo. Sabe aqueles pensamentos tortos que surgem quando você está prestes a dormir? Falo disso, pois estes pensamentos, por mais que você diga que não, representam uma boa parte de quem você é – com todas as suas preocupações, anseios, neuroses e preconceitos.

É possível controlar plenamente a palavra? Claro que não. Ela somente brota de você, surge das mais diferentes maneiras, impregnando suas sensações e suas expectativas. O que é possível, porém, é proporcionar algum direcionamento a essas palavras, construindo uma pequena trilha que ampare o caminhar da linguagem. A estrada que pessoalmente ergui se deu com o uso de dois elementos: arte e amor. Arte, porque todos necessitam criar algo em sua vida, seja uma carreira, uma canção ou o esboço de uma casa que um dia pretendem tirar do papel. Amor, porque todos precisam amar alguém para que possam criar aquilo que desejam, já que sem esse componente a vida se torna uma jornada inócua. Procuro a coerência entre agir, pensar e falar nos estreitos limites desse rumo, fazendo o possível para não cair na humildade tola e não me afogar na soberba tosca.

É certo que não encontrei uma fórmula ideal ou universal e nem mesmo descobri uma serenidade indestrutível diante das dificuldades da existência. Mas quando o mundo aperta, é nesse refúgio da arte e do amor que procuro alguma sensibilidade que me faça perceber a beleza da vida ainda que imerso no caos de cada semana. Nem sempre esse filtro funciona e às vezes a linguagem, com toda a sua violência e o seu autoritarismo, força minhas barreiras ao ponto de quase me quebrar. Mas aí respiro profundamente, tento racionalizar minha condição e entender que problemas jamais desaparecerão – e o que me cabe é compreender os motivos que levaram ao surgimento desses problemas para, a partir da sua conscientização, proceder com a dura tarefa da superação.

Não sei se esses dizeres ajudarão o meu ex-aluno – e esse texto é uma tentativa de resposta ao pedido que ele me direcionou. Não tenho competência para responder de maneira diversa e nem penso que simplesmente prescrever a leitura de Sêneca ou Montaigne e indicar o número de um bom profissional da saúde mental, seria uma atitude digna da minha parte. Por fim, a única coisa que julgo passível de ser dita, é que para ultrapassar as nossas dificuldades temos que estabelecer alguns marcos que proporcionem o mínimo controle da nossa vida: não deixe que o passado, com seus traumas persistentes, bata constantemente à porta do seu agora – pois o que você vive hoje, e até o mero fato de estar vivo e ter alguém para amar e algo para criar, talvez seja motivo suficiente para você perceber que não é inferior a nada e ninguém e pode, com sua própria força e determinação, fazer do seu presente um presente a si mesmo.