“Retirantes” e “Esperando Godot”

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“Retirantes”
Nessa madrugada, enxerguei aqui na avenida em frente ao prédio uma família de catadores de latinha voltando pra casa. Eram umas sete pessoas maltrapilhas – entre elas, uma idosa e duas crianças.
Senti amargura na imagem e ela não me sai da cabeça.
Claro que são indivíduos que procuram sobreviver dignamente a partir do lixo que nós, “cidadãos de bem” que fingimos nos preocupar com o meio ambiente, produzimos.Mas qual futuro terão aquelas duas crianças em termos de educação, por exemplo?Qual dignidade terá aquela senhora ao buscar atendimento em um hospital público?Poderiam ter as mesmas comodidades que tenho?Alguém pode dizer: “mas se a pessoa se esforça, consegue tudo o que quer!”. Óbvio que isso existe. Mas a exceção, embora mereça aplausos, não pode ser tida como regra em um contexto que não possibilita a mínima igualdade de oportunidades entre os indivíduos.
O fato, porém, é que não sei como modificar essa situação.
Não esqueço dos pequenos e médios empresários que são achincalhados pelo Estado e pelas grandes corporações.Não esqueço dos profissionais liberais e autônomos que fazem das tripas coração pra viver minimamente bem.Não esqueço dos trabalhadores que vivem em subempregos à base da exploração diária.Não esqueço dos servidores públicos que exercem sua função honestamente em repartições caindo aos pedaços e sem qualquer estrutura.
Não esqueço nada disso.
Mas o retrato da miséria me deixa constrangido com a nossa espécie e o sistema que ela arquitetou, o qual naturaliza a desigualdade para sustentar privilégios.
É triste: é injusto.
O que vi nessa madrugada, talvez seja a materialização pós-moderna da obra “Retirantes” de Portinari: mudam os atores e o cenário, mas o sofrimento é o idêntico.

“Esperando Godot”
Diante da sensação de fim de festa que parece tomar conta do mundo, fazendo com que nos tornemos um misto de Estragon e Vladimir, personagens de Beckett que vivem na inútil espera de Godot, lembro da pergunta de Baudrillard: o que fazer após a orgia?
Quando as expectativas são frustradas dia após dia pelos duros golpes da realidade, construindo um desolador cenário de ausência de sonhos, talvez essa seja a questão fundamental.
Encarar o deserto do real, como diz Žižek, é essencial: apenas do reconhecimento total e irrestrito do local e do tempo no qual nos encontramos, podemos pensar em perspectivas de futuro.
A desilusão não é má ou puramente negacionista: é tão-somente o fim de uma ilusão.
Godot, tal qual todo e qualquer autointitulado “salvador da pátria”, não virá pelo simples motivo de que não existe.
Vivamos com isso e procuremos erguer amanhãs a partir disso – não perdendo a capacidade de escrever novas utopias, aproveitando alguns elementos das antigas.
Sem projeções e projetos para o futuro, não há humanidade – mas, ao mesmo tempo, sem o reconhecimento amplo e irrestrito do vazio que se encontra no centro da existência humana, não há possibilidade de construção de projetos e projeções para o futuro.