Russomanno e o “religiosismo” contemporâneo

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A onda de “religiosismo” atual pode ser vista como um reflexo antagônico do enorme desenvolvimento na área técnico-científica presenciado nas últimas décadas. Na tentativa de sonegar evidências, por absoluto e puro temor as massas rumam na direção do “desconhecido”, do “místico”, o qual não se manifesta apenas em tantas facções neo-pentecostais pelas quais cruzamos de esquina em esquina, mas também na propagação absurda de “Teorias da Conspiração” e demais “espiritualismos” encapsulados nos best-sellers do momento.
Além disso, quando há o reconhecimento nítido de que tamanhos avanços morais, éticos e jurídicos tidos nos últimos trezentos anos advém da propagação de uma cultura laica e secularista, também há a percepção de que, sendo secularista, essa cultura varia enquanto espaço-tempo, não possibilitando abertura para demandas comportamentais que adjudiquem um viés inquebrantável e inquisitorial por se tratar de uma posição laica. Como vivemos em uma realidade marcada por preconceitos crescentes, algo palpável na contemporânea postura dos países europeus quanto aos estrangeiros, pode-se afirmar igualmente que essa reação é simetricamente negativa em relação ao transcorrer do desenvolvimento histórico, sedimentado pela tentativa de aceitação do outro enquanto igual.

Para que possamos perceber outras manifestações da tendência que cito, basta observar a imensa votação de Celso Russomanno na corrida pela prefeitura de São Paulo, embora o candidato não tenha conquistado posição no segundo turno do pleito. Representante do PRB (Partido Republicano Brasileiro), o qual consiste no braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, Russomanno afirma, dentre outras declarações, que deseja “uma igreja em cada esquina da cidade”. Defensor da PEC 99/11 (a qual modificaria o art. 103 da Constituição Federal, possibilitando que associações religiosas tenham capacidade para propor ações de constitucionalidade e inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal), Russomanno inclusive consiste em figura pública brasileira que detém interesses casados com o atual discurso de alguns baluartes do Partido Republicano dos EUA (os quais defendem a extinção do ensino evolucionista nas escolas públicas, sendo este substituído, ipsis literis, pelo ensino criacionista).

Dentre as várias conclusões que podem ser retiradas de todo esse cenário, a principal quem sabe esteja para a necessidade de permanecermos vigilantes. A igualdade entre os cidadãos apenas se perpetua com a expansão das liberdades, a qual, por sua vez, dá margem ao surgimento da diferença como sua própria condição. Trata-se de um palco teórico/prático complexo que talvez possa ser parcamente resumido da seguinte maneira: quanto mais liberdade detenho, mais posso afirmar minha diferença, considerando-se que quanto mais pessoas detiverem a liberdade que detenho, “mais iguais” nos sentiremos na afirmação dessa diferença, dessa singularidade. Nota-se assim que atrelar o futuro jurídico-político de um país a concepções dogmáticas de raízes fascistas, na contramão de um pensamento de base iluminista que modificou as relações sociais no transcorrer dos últimos séculos, configura-se um retrocesso tremendo, visto que daria margem para a transmutação de concepções morais (por natureza, individuais) em concepções éticas e jurídicas (por natureza, coletivas), o que de forma alguma é postura republicana.

O problema se acentua quando percebemos que grande parte da população, afetada por um bom-mocismo tacanho, por um politicamente correto furtado de auto-crítica, por um anti-intelectualismo arrogante, segue líderes e tendências da estirpe, apenas denotando a necessidade cada vez maior de discussões sérias e profundas com relação a temáticas do gênero. Não que estejamos à beira de um novo Estado Teocrático. Compulsando a história, seria algo que muito dificilmente viria a ressurgir. Mas que há a possibilidade de uma transmutação brusca de valores individuais conservadores em mecanismos de controle social totalmente excludentes, totalmente alheios à diversidade, isso é inegável.