Sertanejices

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Não gosto do sertanejo universitário. Ainda que me pegue cantando no banho alguns refrões da estirpe aparentemente feitos para crianças em fase de alfabetização, afirmo isso não só pela música, já que mesmo o “nome” me parece impróprio. Quando ouço “sertanejo”, penso em violas e no Chico Mineiro. Quando ouço “universitário”, penso em livros e na Universidade de Coimbra. O que isso tem a ver com as baladas que povoam as terças e as quintas da cidade? Absolutamente nada. Mas talvez eu seja o errado da história toda.

O que os caras do sertanejo universitário fizeram, foi juntar elementos do rock com alguns floreios de acordeon que surgem de vez em quando. Além disso, pegaram alguma coisa dos ritmos baianos e latinos e jogaram no liquidificador. Pra arrematar, em vez de escreverem letras de choro pela mulher amada, passaram a dizer que a fila anda e querem mais é curtir a vida. O resultado? Músicas que se grudam no ouvido e podem ser tocadas por qualquer violeiro meia-tigela depois de um litro de whisky.

Claro que quando falo de violeiros bêbados, me refiro a essa gurizada que martela violões madrugada adentro. Não falo de músicos profissionais, os quais, imagino, tocam esses troços por dinheiro. Já conheci um excelente guitarrista, fã do Pizzarelli, que conseguiu um emprego numa dessas bandinhas com nome esotérico pra se sustentar. Ele me disse que com o tempo passou a gostar daquilo. Ficava feliz ao ouvir a Peluqueira. Mas penso que esse gosto surgiu unicamente pra que o sujeito não sentasse uma bala no ouvido. Trabalhar com algo que se odeia é horrível. Como as pessoas conseguem? Não convém detalhar.

O interessante de se comentar, é que o sertanejo universitário quer dizer muito mais do que grita minha interpretação chata, estrita e até preconceituosa. No fim das contas, sendo que não pretendo me alongar em análises pseudo-sociológicas ou o que o valha, diz de certa liberdade afetiva dos jovens atuais. Se uma mulher deixa o camarada, aparentemente quinhentas outras moças surgem. Se um homem adorna a cabeça da senhorita com um par de guampas, a mesma coisa acontece. Isso não é ruim. O fato é que realmente a fila anda e as pessoas querem mesmo é aproveitar a tal da vida, de preferência com aquele CD maroto do Jorge & Mateus no rádio do carro pra pegar as menininhas.

Mas será que essa é uma verdade? Acho que sim, mas em partes. Não consigo aceitar que essa coisa dos relacionamentos serem como líquidos que escorrem de um lado para o outro e nunca se fixam em algum lugar seja proveitosa. Em realidade, acredito que isso causa mais angústia que prazer. Há alguns anos desconfio que a razão das nossas existências esteja vinculada à arte e ao amor. À arte, na medida em que sempre precisamos criar algo, seja um filho, um cão ou um livro. Ao amor, na medida em que sempre necessitamos amar algo ou alguém justamente para criar. Trata-se de um circuito fechado que delimita os contornos da nossa vida.

Se eu jogar essa minha desconfiança sonhadora e existencialista na lógica das festas e das letras do sertanejo universitário, o que verei são pessoas negando uma melancolia por não conseguir realizar o que pretendem da vida em troca de uma superficialidade de peles e bocas. Não que eu seja contra. Gosto muito, aliás. Mas acontece que a juventude está parecendo tão, mas tão carente de propósitos seja no campo que for, que essa liquidez dos relacionamentos invariavelmente escorrerá para outros campos da vida. Consequências? Importa o momento, o efêmero, o prazer que tenho com o outro e jamais a existência do outro.

Esses dias, conversando com alguns amigos, cheguei à conclusão de que as gerações atuais não acontecem mais de vinte em vinte anos, como no meio do século XX, por exemplo, mas se modificam de cinco em cinco anos. Se as coisas realmente são assim, é óbvio que estou completamente atrasado diante desse pessoal do sertanejo universitário. Ou será que é apenas birra? Tendo Matzembacher e Frizzo por sobrenomes, não se pode esperar nada diferente. Só pra tentar mudar de ideia, vou em alguma dessas festas da terça e da quinta pra ver o que acontece. Desconfio, admitindo extremas margens de erro, que o máximo que pode ocorrer é eu me tornar mais chato ainda. Ficarei sempre com o velho e bom sertanejo-dor-de-cotovelo. Nada melhor que dizer que a mulher é uma ingrata, que devemos nos resignar com a tristeza da vida e que existem nuvens, lágrimas e litros de cerveja em fotos 3×4.

P.S.: Pra deixar a coisa mais hard ainda, prefiro o Vicente Celestino acima de tudo. Era isso.