Sete breves considerações para um ano eleitoral: parte primeira

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Um dos maiores problemas do nosso tempo foi diagnosticado há décadas por Nelson Rodrigues: vivemos uma época em que “os medíocres perderam a modéstia”.
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Nunca, jamais, em hipótese alguma, darei crédito ou levarei a sério quem diz e repete aos quatro ventos que os únicos e certeiros “inimigos do povo”, “culpados por todos os males do Brasil”, “que merecem uma latrina como cama”, são os políticos e ninguém mais. Vale o mesmo para aqueles que pensam em direitos humanos ao melhor estilo Datena – bem como para aqueles outros que lêem uma notícia no site do Projeto Portal (entenda-se: ET Bilu, aquele com voz de criança sacana) e acham que aquilo é “real”. Razões? A vibe desses senhores e tantos mais é exatamente a mesma. Costumeiramente são os arautos da moral e dos bons costumes, devotos de um dogmatismo caolho.
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“Sou anti-PT”, “anti-PMDB”, “anti-ISSO”, “anti-AQUILO”: que coisa mais irritante gente que vive falando coisas assim. Já eu, penso que bom mesmo é anticoncepcional.
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Seguinte. Pessoa inventa uma bandeira – geralmente com traços de “bom moço”. Em seguida, torna suas cores uma espécie de roupa. Veste esse tecido em todos os momentos, enchendo a paciência de qualquer cidadão que cruzar na sua frente. Discursa, debate, participa de “movimentos sociais” (com vinculação partidária óbvia e interesses particulares mais claros ainda) e se diz “preocupada”. Tenho visto muito disso pela cidade desde a metade do ano passado. Qualquer coincidência com o ano eleitoral não é mera coincidência.
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Estamos na época dos slogans sonolentos. “Fulano é a cara da juventude”, “Cicrano é a voz do campo e da cidade”, “Beltrano é aquele que fará mais e melhor”. Sem contar nas inúmeras canções like a San Marino que surgirão nesse meio tempo. Pois olha. Com tantos candidatos feios, com tantos aspirantes a vereador que nunca viram um boi na frente e com tantos políticos que não sabem a diferença entre argumento e pedantismo, tenho mais é que rir. Mas o que acho mais engraçado (mesmo) é o look das fotos de campanha: quase nunca de terno, sempre de camisa, geralmente com cara de Chuck Norris bondoso (e bem sucedido) ou de senhora que frequenta a Casa da Amizade pra tomar chá com as amigas. A onda é aparentar ser “um cidadão de bem” – no sentido mais frígido e sem graça do termo. Falta tesão na política.
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Sempre desconfie de alguém que diz que “ama sua terra”. Geralmente, mesmo que existam exceções, essa pessoa confunde “terra” com aqueles algodões nos quais as crianças plantam pés de feijão nos jardins da infância. Ou seja: é tudo descartável, seja qual for o norte ou o embasamento do discurso. E mais: sempre desconfie dos chatos de plantão com discursos monocromáticos. Tudo o que se expõe em apenas uma cor tende direta e totalmente à cegueira – e pior: a propostas carentes de qualquer utilidade pública.
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Aposta/profecia: “Ai se eu te pego” será a base para os jingles políticos mais utilizados em 2012. Ou será que o “tchu tchá”? Tipo: “Eu quero Fri / Eu quero Zzo / Eu quero Zzo / Zzo, Zzo, Zzo / Pra vereador!”.

Pronto. Perdi a oportunidade de me candidatar.