Sete breves considerações sobre 21 de dezembro de 2012

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Há muita coisa que não entendemos. Existem muitos fenômenos sem qualquer explicação. Mas isso significa que devo respeitar sem quaisquer óbices, por exemplo, a “Cultura Racional” do “profeta” Manoel Jacintho Coelho, o qual dizia que escreveu seus mais de mil livros “ouvindo” os sussurros de uma entidade denominada “Racional Superior”, que lhe instruiu a “revelar” para a humanidade a “cura” pela “imunização racional”? Óbvio que não: isso cheira à esquizofrenia. Já foi o tempo em que religião, política e futebol eram assuntos indiscutíveis.

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Fim do mundo pré-colombiano é um troço estranho, assim como toda e qualquer crença milenar ou contemporânea. Pessoas acreditam em coisas ditas quase que no tempo da pedra lascada e duvidam do desenvolvimento científico moderno e contemporâneo. Quer imbecilidade tamanha como aquela do tal Planeta X, Nibiru ou Hercólobus?
Tosquice pura. Mas pior mesmo foi esses dias quando cruzei em frente a certo estabelecimento neopentecostal de Santo Ângelo e vi os caras orando pra uma TV ligada que berrava qualquer placebo. Imagina uma criança crescendo num lar desses? Diante da natural curiosidade infantil, o que receberá será uma enxurrada de dogmatismos tecidos de pura castração.

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Em um jornal de Santo Ângelo, vejo camarada oferecendo serviços de “reiki quântico/estelar” e “cura ascensional/iniciação para a 5ª dimensão”. Já em uma revista da cidade, que em realidade é uma coluna social com páginas caras, vejo sujeito vendendo “psicoterapia reencarnacionista”, “tratamento ortobiomolecular” e “cura xamânica”. Por outro lado, no Caderno Donna da ZH, todo domingo observo anúncios de “limpeza de caminhos para o final de ano” e mesmo de feitura de “pactos com Lúcifer”. Não fosse o bastante, toda vez que me deparo com certas coleções de livros “espíritas”, penso que a inteligência e o bom gosto do “lado de lá” estão no patamar de “A Usurpadora” ou “Salve Jorge!” do “lado de cá”. É espiritualidade demais pra minha paciência. Ou seria desespero?

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Se existem “crianças cristãs” e/ou “evangélicas”, naturalmente também existem “crianças petistas” e/ou “tucanas”. Liberdade pressupõe consciência da autonomia. Incutir qualquer religião ou ideologia em uma criança, a qual não detém plena consciência da sua liberdade, consiste em um ato violento e autoritário. Mas por que maior parte das pessoas insiste em falar que práticas como o batismo católico são essenciais? Talvez gostemos de baixar a cabeça e apenas dizer “sim, senhor” (seja com “s” ou “S”).

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Já ouviu falar de David Icke. Não? Pois bem: trata-se de um escritor e palestrante britânico que defende que os “reptilianos” – ETs que são répteis humanos – dominam o mundo. Pode? Sim: sujeitinho dá palestras pelo mundo todo, sendo admirado no círculo de nerds comedores de Doritos que acreditam em “teorias da conspiração”. Daí chega alguém e me fala: “mas você não tem como provar que ele está errado”. E respondo: “e você não tem como provar que ele está certo”. Pronto: the end. Como certa vez ilustrou Carl Sagan, o fato de não existir um dragão na minha garagem e você crer que ele existe, não significa que o dragão terá alguma possibilidade de existir. Simples assim.

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Qual é a diferença entre fazer oferendas ao Monstro do Espaguete Voador, Criador do Universo que iniciou sua obra com uma montanha, uma árvore e um anão, e acreditar que certa vez, em um longínquo momento histórico, alguém efetivamente ressuscitou e depois foi literalmente sugado por uma “luz divina”? Nenhuma. Resta a consciência de que a ciência e a fé, seja da natureza que for, jamais podem andar juntas. Enquanto a primeira se baseia na presença de evidências, a segunda se baseia na total ausência de provas. Há um largo abismo entre crer em mesas voadoras ou na Zíbia Gasparetto e buscar evidências da matéria escura ou do Big Bang. Saibamos diferir hipóteses científicas de contos de fadas.

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Em tempo: se você está lendo essa coluna impressa na edição do Jornal das Missões de 22 de dezembro de 2012, significa que o mundo, mais uma vez, não acabou no dia 21. Parabéns aos Maias! Ou seria à Hollywood? De qualquer sorte, esperemos o próximo fim do mundo. Com certeza virá.