Sete breves considerações sobre “Cinquenta tons de cinza” de E.L. James

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Toda história de amor contada em livros e filmes que tenha um final feliz costuma ser extremamente chata.

Mel é bom quando é com a gente. No caso da literatura ou do cinema, legal é ver os caras se lascando.

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Mulheres andam pra lá e pra cá com o “Cinquenta tons de cinza” da E.L. James. Na padaria, no cinema, na rodoviária, nas ruas – é só o que se vê. Lendo trechos da dita obra, percebo que a mesma detém uma escrita muito, mas muito pobre. Mais ou menos isso: enredo com cenas insólitas e ilógicas entremeado com sexo e sexo e mais sexo. Mas faz parte (toda lista de best-sellers traz muitas porcarias, é corriqueiro).

O que me pergunto é o seguinte: se é “normal”, no sentido de socialmente aceitável, as moças, senhoritas e senhoras andarem com os livrinhos cinzas por aí sem serem chamadas de taradas, pervertidas ou troços do gênero, também é “normal”, no mesmo sentido exposto acima, homens andarem com artigos ao estilo “Playboy” pelas avenidas sem serem tachados com alcunhas pejorativas?

Nada contra a literatura erótica (ou o “pornô soft”, como se tem dito). Trata-se apenas de algo que me ocorreu. This is it. Talvez seja apenas resultado de uma época na qual as “tchutchuconas” são o estereótipo predominante. Vá saber.

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Homem fala pra mulher: “Amor!, tu vai se pintar?!”.

Penso: “Argh!, parece que tá chamando a mulher de palhaça porque ela vai se maquiar! Pouco sabe que o palhaço é ele!”.

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Charles Bukowski é bacana. Mas não chega aos pés de Henry Miller, por exemplo. Porém, tanto Bukowski quanto Miller trazem mais enredo que sexo – sem contar que não se trata de sexo por sexo, mas de outra coisa, visto que subsiste uma clara intenção de transcendência nessas prosas. Isso nada tem a ver com E.L. James. Por isso citei a “Playboy”. O que E.L. James faz, como mencionou esses dias uma professora da USP em certa entrevista na Globo News, é empacotar o mistério do sexo em algo simples, amarrado e palatável. Recordo que essa mesma professora, da qual infelizmente não lembro o nome, denominou a obra como “Cinquenta tons desbotados”. Pelo que pude averiguar até agora, está coberta de razão.

Além disso, pegue a dita “música popular”: existe uma exaltação da mulher sedenta por sexo. É ruim? De modo algum: cada um faz o que bem entende da vida. Como disse acima, fenômenos literários como o que referi quem sabe sejam sintoma de algo – talvez de um vazio existencial que queremos preencher com alguma fórmula pronta ao custo de menos de R$ 50,00. Trata-se de uma crítica? No sentido estético, sim – mas de forma alguma de uma condenação com relação às pessoas que apreciam essa literatura ou vivem um estilo de vida que talvez, aos olhos “normais”, possa ser tido como “devasso” ou caolhices do tipo.

Seja da forma que for, o gozo sempre é sagrado.

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“Santo Ângelo é só curtição ultimamente”, diz uma amiga.

Respondo: “Deve ser por isso que tem tanta gente infeliz por aqui. Ou será que o mundo inteiro é assim?”.

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Tudo bem: comparar não é fácil. Mas também não é impossível. Quando pego Reinaldo Moraes e sua “Pornopopéia” ou Hilda Hilst e seu “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, só pra ficar nas plagas de uma literatura com ares sexuais e de autores brasileiros, é extremamente complicado não incorrer em comparações diante de E.L. James. Penso que é fato que existem escritores “maiores” e “menores” no sentido estético do termo, sendo que aí, e somente aí, podemos traçar linhas comparativas. Convenhamos: entre um Sidney Sheldon (o qual li muito na infância e na adolescência) e uma Pola Oloixarac (escritora argentina que estou lendo no momento, autora do excelente “As Teorias Selvagens”), existe um abismo indevassável.

Nesse sentido que falo e nesse diapasão que citei Bukowski, Miller, Moraes e Hilst, invariavelmente trago à tona alguns apreços que construí no transcorrer dos meus vinte e oito anos de vida – os quais podem mudar de uma hora para outra, assim como minha visão de mundo se modificou após a leitura de “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera” de Raduan Nassar (sem contar “Ficções” de Jorge Luís Borges, outro argentino que considero genial – ao lado, talvez, de Júlio Cortázar). Então, penso, comparações e avaliações, mesmo que difíceis, são possíveis, pois do contrário sequer a Teoria Literária ou a Crítica Literária existiriam.

Por esses motivos, tenho de ser claro: E.L. James é muito ruim.

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O atual uso indiscriminado de expressões como “eu te amo”, é sintoma de “mais” ou “menos” amor entre as pessoas? Será que contemporaneamente amamos “mais”, de modo fugaz e intenso, ou “menos”, de maneira profunda e duradoura?

O que importa, afinal?