Sete breves considerações sobre nada demais: parte primeira

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 Uma sociedade se torna bizarra a partir do momento em que pensa a si mesma como normal. Esse é um dos grandes males do bom-mocismo e do anti-intelectualismo brasileiros. Aos olhos da maioria, você só tem valor se é politicamente correto ou se aponta soluções. Mas as pessoas esquecem que a vida é uma novela mexicana escrita por um Shakespeare disléxico – e que todo “destino” é uma rodoviária disfarçada de asilo. Por isso é que a cada dia que passa me torno mais anarco-punk niilista.

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O medo vendido e revendido é o único produto que sustenta o sistema atual. Risco de assalto. Risco de doenças. Risco financeiro. Risco de perder a mulher. Risco de sofrer mais riscos. Dá pra entender essa onda de misticismo besta só olhando para o fator “risco”. Quando a situação fica feia, a primeira coisa que buscamos são fantasmas: fantasmas do fim do mundo, dos ETs ou da tal da “moralidade”.

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Pessoal está atrás de bons salários, não de bons empregos. Poucos percebem o fato de que trabalhar é vender seu tempo, vender sua vida. Quando os objetivos se direcionam somente para a possibilidade de consumo, confundindo suas veias com possíveis felicidades, há um desgaste tremendo da potencialidade humana. Razões para o comportamento geral andar nessas plagas? A principal é o medo: esse monstro metafísico que nos trava a liberdade e a consciência da liberdade.

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Ter foco? Privilégio das lanternas. Ter “vida pessoal”, “vida profissional”, “vida amorosa” ou “vida sexual”? Trata-se de algo que certamente tem a ver com aqueles arquivos divididos em mil gavetas. Coisa mais pequena, mais reducionista e precária, essa economização da existência, como se tudo pudesse ser expresso em manuais, em gráficos, em delimitações. Bom mesmo é aceitar o caos – e perceber que por mais que queiramos, o vento não possui nenhum esqueleto que diga seu início e seu fim.

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Se considerarmos que escolhas são necessárias, a vida não é feita de escolhas, mas da necessidade de escolher. Esse é o principal motor das nossas inquietações, acionado pelo desamparo de saber que inexistem verdades absolutas e que toda escolha, ao fim e ao fundo, consiste também em uma resignação. Há como ser diferente? De modo algum. Somente assim pinceladas de felicidade podem atingir nossos olhos e nossa boca.

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Falar em “destino” é negar a possibilidade humana de mudança. Mais ainda, é negar o fato de que acima de tudo, embora constantemente não queiramos admitir, estamos, sempre e cada vez mais, completamente condenados à liberdade. Essa é a causa da maior parte dos nossos problemas, mas também de toda e qualquer alegria que possamos vir a ter.

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Falta-nos menos moral e mais ética. Falta-nos menos deuses e mais perguntas, menos “humanos direitos” e mais direitos humanos. Falta-nos menos sorrisos e mais amigos, mais abraços e menos tapinhas nas costas. Falta-nos mais “por favor” e “obrigado”, sem obrigações. Falta-nos mais vitalidade e menos medo, menos idiocracia e mais sabedoria, menos amor no Dia dos Namorados e mais amor na procura pelo amor. Falta-nos deixar de viver na angústia da solidão e no medo da companhia. Falta-nos, enfim, mais reflexão e sensibilidade. Mas fundamentalmente, falta-nos menos pessoas que se assemelham a salsichas enlatadas e mais pessoas que sintam profundamente o significado da palavra “liberdade”.