Silêncio

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Escrevi muito pouco esse ano. Nem minhas colunas semanais aqui nas páginas do Jornal das Missões consegui compor de forma plena – o que resultou em vários e-mails direcionados ao Estevan Minini, editor do jornal, com desculpas e justificativas esfarrapadas pelas minhas ausências. Foram inúmeros os sábados nos quais não apareci – e tal ocorrido, como inclusive falei em um texto, deveu-se à correria da vida cotidiana. Mas hoje confessarei algo: não foi apenas isso. O motivo mor dessa escassez de palavras é outro, acredito. “Falta de talento, Frizzo?” – sussurra uma voz na minha cabeça. Respondo: “também, mas o principal é que simplesmente não sei o que dizer sobre tanta coisa que aconteceu em 2015”.

Fico intrigado com o cidadão que consegue construir posicionamentos mil da noite para o dia. Parece que tem gente por aí que passa o tempo todo na espreita de um novo escândalo político, por exemplo, para disparar, sem qualquer reflexão, as palavras que vêm à sua mente em textões publicados aqui e acolá. A maturação da ideia inexiste, o peso dos argumentos é pífio e a conclusão a qual posso chegar ao ler tantas opiniões propagadas sem cuidado é que, no fundo, assim como eu, quase ninguém sabe o que o pensar diante de tantas provocações do mundo. Então por que esse palavrório todo, se no final ele não leva a lugar nenhum?

O fato é que as pessoas vivem constantemente ansiosas. Seja em qual campo vivencial for, são pressionadas a ter a frase certa na ponta da língua sem titubear, gaguejar ou sentir o suor fluindo das mãos. Aquela história de pesar os prós e contras de tudo para só aí tomar partido não vale para os anos zero/zero. Tudo deve ser rápido, voraz, eficaz – e a mensagem que demora para chegar ao seu destinatário, já que se encontra envelhecendo para atingir seu ápice, assim como um bom vinho, aparentemente não possui nenhum valor nesse palco do hoje. Há um senso de urgência que sufoca a inteligência, fazendo com que todos se alimentem de drops de informação e cultura – visto quenão há tempo para que tudo aconteça de maneira diversa.

Semestre após semestre, na condição de professor universitário, presencio evidências disso. Noto que os alunos, sem dúvida alguma, encontram-se cada vez mais curiosos – o que é extremamente saudável, considerando que todo pensar acadêmico parte da dúvida para construir suas catedrais. Mas se por um lado existe essa curiosidade, por outro há uma preguiça misturada com ânsia que faz com que as criaturas julguem um livro de cem páginas extenso pra caramba. No afã de chegar ao destino que imagina, o aluno quer pular etapas e não se dá conta de que a construção do conhecimento nem sempre é prazerosa – e exige, sobretudo, dedicação e disciplina para que se dê de forma minimamente suficiente.

Fico preocupado com essa situação: nesse misto de ansiedade e preguiça, acabamos por viver em um caldo que transpira pura inércia. Como encontraremos soluções para problemas tão complexos quanto estes atualmente vivenciados ficando apenas no raso, na superficialidade de temas com profundidades gigantescas? Como responderemos aos nossos filhos e netos quando eles nos questionarem sobre algo relevante da época em que éramos jovens?Falaremos que fizemos um post no Facebook ou no Twitter, que montamos uma corrente cheia de emoticons no WhatsApp para externar nossa sensação? Esse imediatismo ainda fará com que, aos olhos futuros, pareçamos uma cambada de idiotas e nada mais.

Por essas e outras que este é o último texto que escrevo em 2015. Segunda-feira iniciam minhas férias – e quero, nesse período, aquietar os sentidos para dar o start em 2016 do melhor modo possível. Começarei bem: na próxima quarta, 16, em Porto Alegre, realizarei o sonho de assistir David Gilmour ao vivo – sem contar que logo na quinta estreia o novo Star Wars. Portanto, penso que é improvável a existência de um melhor início de descanso que esse. Espero que no próximo ano eu consiga escrever mais – ou talvez ao menos desenvolver de maneira satisfatória minha agilidade mental que andou meio capenga nos últimos trezentos e tantos dias. Se isso não ocorrer, porém – e minhas faltas aos sábados persistirem aqui nesse cantinho –, saibam que meus motivos podem ser expressos assim: tem horas em que o melhor e mais eloquente comentário é aquele que preenchemos tão-somente com silêncio.

Hasta enero!