Simples assim

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Fala-se muito em crise atualmente. Crise do Estado, crise da economia, crise do sujeito. Parece que todos os campos da atuação humana se encontram em suspenso, como que atentos para o próximo movimento – o qual pode ser tanto um cruzado de direita quanto um gostoso e fraterno abraço. Nesse entremeio, porém, muitas bobagens são ditas. A proliferação das possibilidades do indivíduo dizer o que lhe vem à cabeça, pelo que tenho sentido, em vez de espraiar o pensar, deu asas à disseminação do puro achismo, sustentado em reclamações e concepções por momentos eivadas de total ignorância – para não usar a palavra “burrice”.

Quando ouço alguém dizer de uma “crise do ensino” ou uma “crise da educação”, principalmente em se tratando do ensino superior, que é minha área, é exatamente isso que percebo. Por um lado, aqueles que querem que o aluno seja um lençol de paparicos, aprendendo por meio de vídeos e troços do gênero – sendo que o professor nem sequer pode corrigir provas com caneta vermelha, porque poderia traumatizar o vivente. Por outro, aqueles que veem os alunos simplesmente como mercadorias e/ou clientes, pouco importando qualquer outra peculiaridade – não interessa a formação ou o conhecimento para aqueles que possuem essa visão: interessa o mercado, esse grande monstro metafísico que paira sob nossas ancas.

Há que se ter muito cuidado, portanto, pois educação não se dá com artimanhas. Educação se dá com dedicação sistemática e consciente. Se você pensa que vai aprender algo a partir da construção de um saber fragmentado, com vigas de sustentação dispersas e que não casam entre si, está enganado. Isso pode ser qualquer coisa, menos educação. Por esse motivo é que essa modinha de fazer de tudo para atrair a atenção do aluno, por exemplo, com a desculpa de que “a juventude vive em um mundo rápido”, diferenciado e blablablá, é um tremendo embuste. Aprendizado exige estudo e estudo exige leitura estruturada a partir de fortes bases: simples assim. Todo o resto é mentira e conversa para boi dormir.

Além disso, educação não tem nada a ver com motivação: educação tem a ver com disciplina. Esperar “motivação” para estudar é o mesmo que aguardar um novo emprego sentado na poltrona assistindo a besteiras no History. Trata-se de uma atitude fraca de gente fraca, do tipo que espera que o mundo acabe em barranco para morrer escorado. Somando-se a isso, a educação não é preparatória para nada. A educação subsiste em si mesma, de maneira que “estudar para tirar uma nota boa na prova” e “estudar para passar em um concurso” não passam de baboseiras que consolam a mente diante da preguiça e da negação renitente em construir a si mesmo através da educação.

Havendo esse compromisso, essa força com relação à própria educação, o que se dá, primeiramente, com a trama de uma sólida cultura geral, passando por uma percepção bem informada acerca da contemporaneidade e desaguando em eixos de estudo racionalmente erigidos, existirá alguma educação e consequente possibilidade do seu posterior proveito seja da forma que for. Logo, esses palavreados que ligam a educação com o mercado de trabalho consistem em crimes contra a educação.

Por fim, também se deve dizer que essa ridícula prática de “passar a mão na cabeça” do aluno, de adular e tudo o mais, é idiotizante, pura extensão da máxima de que o cliente sempre está certo. O que perpetuamos dessa maneira? O surgimento de uma geração de babacões que se creem importantes unicamente por conta de um título – considerando que uma geração de babacões vai resultar em uma sociedade de babacões. Se o sujeito não quer seguir a linha, que caia fora: ponto final. Precisamos de gente com pulso e com responsabilidades, não de uma sociedade preguiçosa e parcamente informada que vai replicar sua canalhice intelectual geração após geração.

Apenas aí é que teremos educação, independentemente da existência de crises ou não.