Sob a ação de um trauma

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Escrevo sob a ação de um trauma. Não se trata de um trauma qualquer, desses que você resolve rapidamente no divã do psicanalista. Trata-se de um trauma coletivo que abateu o ânimo brasileiro na tarde da última terça-feira. Muitos dirão que é apenas futebol, que não vale a pena endossar brios nesse sentido quando o mundo, implacável como sempre, grita impropérios na soleira da porta.

Mas o fato é que se um trauma desse gênero não fosse efetivamente percebido por nós, sequer sentiríamos o que se passa em nosso corpo ao ouvir uma bela música, ao ler um romance tremendamente bem escrito ou ao assistir a um filme genial. Traumas estéticos, digamos assim, quando relacionados a um ímpeto de orgulho patriótico que pode ser bobo, mas existe, são traumas verdadeiros, prendendo algo estranho no vão das cordas vocais.

Óbvio que a Copa do Mundo trouxe consigo um festival de barbáries pelo país.

Para citar algumas, basta falar das centenas de famílias desabrigadas em função da construção dos estádios, da repressão brutal e da criminalização dos movimentos sociais presenciada desde o início do Mundial, da privatização do espaço público chancelada pelo Estado a uma das organizações mais suspeitas e fechadas do planeta, do superfaturamento e da inexistência de obras de mobilidade urbana prometidas há anos e mesmo da imbecilidade da mídia tradicional e do conflito entre os “pró-Copa” e os “anti-Copa” que tomou conta do país nesse último mês, pautado por uma idiotice argumentativa que também impregna o debate político nacional.

Se quisermos ir adiante, também poderíamos dizer do racismo e do ódio inserido nos impropérios proferidos contra Zúñiga, da exploração sexual de crianças e adolescentes impulsionada pela cegueira estatal que o evento trouxe consigo, da higienização social promovida nas cidades-sede do Mundial e da maquiagem festiva que se instalou no Brasil nesse junho de 2014 para sonegar a patente desigualdade social que nos constrói como uma nação que quase poderia funcionar sob a lógica das castas.

Tudo isso é verdade e deve ser lamentado e estudado para que não se repita, ninguém duvida. Mas ainda que tragamos esse vento racional e crítico para o cotidiano, tentando encontrar ecos do modo de ser brasileiro na pífia atuação da seleção contra a Alemanha – a improvisação e o individualismo versus o planejamento e o senso de equipe, por exemplo –, nada obstrui as consequências dessa estranha tristeza que ainda tentamos deglutir por meio de análises e mais análises, como quem se pergunta, diante de uma tragédia, a razão para aquilo tudo. Foi triste e deprimente, assim como é triste e deprimente todo esse cenário que possibilitou a realização da Copa.

Mas espero que dessa tristeza, desse trauma que sofremos coletivamente no início dessa semana, possamos retirar aprendizado e não apenas o tradicional comportamento que nos leva a apontar culpados por algo assim ocorrer.

Quem sabe, ademais, estejamos sublinhando em demasia nossa despedida da taça. Talvez deveríamos apenas deixar para lá – pois, afinal, “é só futebol”, como não canso de ouvir. Mas a atitude correta, considerando que prezamos tanto por esse esporte que de um ou de outro modo constitui nossa identidade de maneira cromossômica, certamente é refletir sobre os pontos que nos levaram a essa tristeza e possibilitaram a ocorrência de um acontecimento esportivo de tal magnitude.

Não devemos desprezar nossos sentimentos e nossa vergonha futebolística em prol de análises eminentemente racionais. Devemos, aliando uma coisa a outra, lamentar por todas as mortes ocorridas para que a festa se desse e também passar a pensar o futebol não mais com o ridículo timbre da “jogada individual”, mas como um esporte de equipe no qual o time somente consegue atingir seus objetivos se seus integrantes pensarem mais no colega do que em si no transcorrer da partida. A necessidade desse senso de coletividade, de pertencimento, de corresponsabilidade, de “jogar em conjunto”, deveria ficar clara para todos nós – para que percebamos que esse país não pode ficar nas mãos de meia dúzia de empresas e sujeitos que monopolizam benesses aos seus quintais enquanto a violência e a pobreza tomam conta das ruas.

Se uma lição pode ser retirada do evento cataclísmico que nos assolou no oito de julho, é a seguinte: precisamos deixar de pensar que nossos problemas são únicos, individuais, restritos ao nosso mundinho, mas perceber que as dificuldades que enfrentamos no mais das vezes são compartilhadas por todos e que sua superação será possível a partir dessa consciência acompanhada de intenções de mudança.

Façamos desse trauma, enfim, não objeto de rancor, tencionando partidarizar e politizar a derrota, pois ao passo que remoemos individualmente nossos problemas, isolados em salas e telas, não notamos que essas dificuldades estão presentes na maioria dos lares brasileiros. Se sofremos unidos no futebol, percebamos que esse sofrimento é uma pista de que temos o dever de coletivamente transformar o país.

Ninguém vira o jogo sozinho.