Sobre bodes, mocinhos e canecos

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Conheci a história do bode expiatório quando estava na 4ª série, em 1994. Foi no Colégio Santo Ângelo e infelizmente não recordo o nome da professora de Língua Portuguesa daquela época. Lembro que lemos sobre o assunto em um livro que adotávamos para a disciplina. Do enredo em si, não tenho imagens precisas, mas o fato é que aquilo nunca me saiu da cabeça. Como poderia um bode, daqueles peludos com cara de velho rançoso, personificar a causa das calamidades de uma sociedade? Parecia-me, desde cedo, algo absolutamente irracional, movido por impulsos puramente infantis de quem ainda não saiu da fase preto no branco – isto é: tipo criança que chora para o amargo e sorri para o doce.

Claro que com o tempo notei o fator simbólico presente nessa prática originária das cerimônias hebraicas e inclusive presente na Bíblia, especificamente no Levítico. A gente, enquanto humano, ridículo e limitado, como canta o saudoso Raul, precisa dessas besteiras para seguir a vida, descarregar os nervos, desopilar e coisa e tal – uma espécie de chopp mental forte pra caramba, em tradução livre. Ocorre que, queiramos ou não, trata-se exatamente disso: de uma besteira tão, mas tão entranhada, que alguns indivíduos consideram algo absolutamente normal, como gostar do Psirico ou se lamentar no Facebook. Por esse motivo é que quando ouço sujeitos dizendo que o PT é o câncer do Brasil e o PSDB supostamente seria a salvação dessa porcalhada, sempre lembro do pobre do bode expiatório.

Colocar a responsabilidade por todo um contexto pra lá de complexo que envolve a formação histórico-institucional brasileira em apenas um partido, personificado como culpado por tudo supostamente dar errado nessas plagas da linha debaixo do Equador, é algo que, se não é tão bobo quanto o troço do bode, trata-se no mínimo de uma perversão da racionalidade digna de um gugudadá. Se dissessem apenas que o PT tem defeitos, assim como o PSDB os traz, eu aceitaria na boa. Se falassem somente que não estão satisfeitos com o que está aí e que as paradas deveriam trilhar um novo caminho, igualmente ficaria tranquilo, quieto com meu whisky. Se argumentassem que o PT passou por um processo de peemedebização ao ponto de se tornar fisiológico na estrutura política brasileira, eu até concordaria e entraria na discussão tranquilamente. Mas referir que a lambança tem um único e unívoco responsável, é demais para a minha beleza.

Talvez mais pessoas deveriam ter lido a historinha do bode lá da minha 4ª série, porque é justamente o que estamos presenciando nessa corrida presidencial, mas em nível discursivo. Pense assim. Quando se deu a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha, falava-se que os judeus e diabo-a-quatro eram os responsáveis pelo colapso do país após a Primeira Guerra Mundial. O que aconteceu? Todos sabem. É fácil apontar alguém para o paredão quando se quer jogar para longe a sensatez e ganhar o apoio da massa. Mas daí um amigo me pergunta: a) “e o PT age diferente?”; b) “você recebeu quanto pra escrever essas bobagens?!”. Respostas: a) de forma alguma!; b) muito, tanto é que sou sócio da Friboi. O que vemos do lado do PT, deixo isso claro, é uma incitação ao próprio maniqueísmo do qual se utiliza o PSDB no achincalho de Lula e Dilma.

Se para os tucanos os estrelas-vermelhas não valem a boia que comem, para os estrelas-vermelhas os tucanos são vira-latas vendidos ao capital financeiro internacional que amamentou FHC e sucateou a pátria amada mãe gentil com zilhões de maracutaias. Fala-se que, caso haja a vitória do PSDB nas eleições de amanhã, ocorrerá inevitavelmente um retrocesso a um passado terrível, temível e sobretudo miserável. Tudo virará do avesso – e, novamente clamando pelo bom-humor de Raul, vamos alugar o Brasil e nos tornar “entreguistas”. O que é isso? Retórica do medo. Enquanto os petistas satanizam a década de 90, os peessedebistas demonizam os anos 00 e tudo, absolutamente, vira discurso de ódio distanciado de mínimos parâmetros racionais. O que percebo? Meu velho conhecido bode transmutado em palavras prenhes de animosidade cega e nada mais.

Podem falar que isso é tática eleitoral normal e rotineira a cada quatro anos e não sei mais o quê, mas o que presenciei nessa corrida pela Presidência foi um quase The Walking Dead em solo tupiniquim, no qual nós, eleitores, não somos os heróis, não somos o Rick, o Daryl ou a Michonne, mas fazemos o papel da zumbizada que anda de um canto ao outro em busca de sangue e carne. Foi esse ódio cego que alimentou toda a corrida presencial em 2014 – no primeiro turno nem tanto, mas no segundo turno de modo escancarado. Personificar é simplificar, simplificar é generalizar e generalizar não é necessariamente abstrair as partes para encontrar um todo coeso e gerenciável ao pensamento, mas, sobretudo, emburrecer.

No amanhecer de 27 de outubro, quando já soubermos e conscientizarmos o lado que levou o caneco do Planalto, espero, meio desesperançado, que ainda tenhamos poder de análise e de crítica para, seja qual for o eleito, mantermos nossos olhos bem abertos para o que acontecer nos próximos anos. De fanatismos com cara de “mãe!, cadê meu picolé?!”, simplesmente estou farto. Entretanto, como deixo nítido, “espero”, assim entre aspas, de maneira que “esperança”, entre aspas também, não trago. O mais provável é que continuemos elegendo bodes expiatórios aqui e acolá, desviando a atenção do que importa e sempre, inevitavelmente, jogando a culpa nos outros, porque é nesse pingue-pongue de batata quente que seguimos na tradição binária do (des)pensamento brasileiro. Essa é a nossa única, preferida e idolatrada ditadura, pois, lá nos remelentos assoalhos do inconsciente, ainda consideramos que o mundo é perfeitamente dividido em mocinhos e bandidos.