Sobre conversas e cifras

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 Fico profundamente espantado com o modo como os termos “economia” e “mercado” são hoje utilizados. Parece que tais palavras se encontram envoltas em uma espécie de aura sacrossanta, como se servissem de justificativa para absolutamente tudo. Não importa se uma atitude governamental ferir a Constituição ou mesmo trouxer repercussões negativas às gerações futuras: é em prol da economia. Não importa se um projeto de lei irá precarizar as relações trabalhistas e fomentar ainda mais os subempregos no Brasil: é pelo mercado. “Economia” e “mercado”, antes de serem conceitos, simbolizam, para o senso comum, um ideal metafísico desprovido de moralidade e que aponta para algo que a nossa mente interpreta como “desenvolvimento”.

Quando você ingressa em conversas políticas, isso é evidenciado de maneira clara. Em dado momento, sempre surgirá alguém que levantará a “questão econômica” ou o “humor do mercado”, utilizando tais bordões com um ar sério e técnico, digno de quem leu bibliotecas. Mas o detalhe incômodo, é que se aparecer um sujeito assim você estará no lucro. Dado o contexto de sobressaltos intermitentes, binarismo tacanho e proto-fundamentalismo em ascensão que vivenciamos atualmente, o mais provável é que apareça um cara que parta para o embate e sonegue qualquer perspectiva de debate. Nessa situação, pouco interessam os argumentos que você carrega ou mesmo o grau de vivências possui: não haverá a menor possibilidade de diálogo e o desfecho deixará os interlocutores infelizes, seja qual for o resultado.

O fato é que andamos tão convictos das nossas posições, tão certos em relação ao que consideramos “correto” e “incorreto”, que verdadeiras conversas se tornam cada vez mais raras, o que não deixa de ser um paradoxo em um mundo no qual as pessoas se comunicam cada vez mais. Ao invés de conversarmos, entramos, como zumbis, em uma onda de pura e absurda reação pela reação, sem processar racionalmente o que falamos e muito menos o que lemos ou ouvimos. Costumeiramente, quando você “responde” alguém em uma conversa, você nem chega a interpretar o que a pessoa diz, mas apenas reage diante do impacto que a fala do outro teve em você.

Quem quiser comprovação empírica do que falo, não precisa fazer muito esforço: basta abrir o Facebook e entrar em uma caixa de comentários de qualquer notícia de um grande veículo de mídia de qualquer nacionalidade. O que você verá não são, com raras exceções, pessoas conversando, mas pessoas que exercitam monólogos infinitos em busca de aprovação pública para o pensar que expõe. A possibilidade de entender o outro e de se abrir ao que o outro tem a dizer simplesmente não surge – e tudo se condensa, quando há sorte, em alguma tirada engraçada que faz com que todos saiam daquele ambiente com a sensação de “fiz a minha parte”.

Jamais negarei que o exercício livre da palavra é o suporte da democracia. Mas a palavra impensada, sustentada na reação pela reação, não confere legitimidade ao debate de ideias, pois se trata mais de uma “defesa de quem eu sou contra quem você é” do que qualquer outra coisa. Conversas, especialmente aquelas que tratam de assuntos de interesse público, deveriam implicar em abertura para a mudança, em trocas simbólicas das quais os interlocutores deveriam sair transformados e não necessariamente emburrados. Se não for assim, qual o sentido do diálogo? Caso falemos com os outros só para afirmar quem somos, não precisamos de ninguém: basta que, em frente ao espelho, repitamos incessantemente, na calada da noite, o mantra do nosso ego.

Não nego, com essas frases, a importância do conflito. Em muitas oportunidades, são debates calorosos os responsáveis pelo amadurecimento do nosso pensamento e da qualidade da nossa argumentação. Mas quando conversarmos com a intenção de tratar de temas de repercussão pública, que estejamos abertos às hipóteses que nos são suscitadas, principalmente se tais hipóteses confrontam com aquilo que julgamos “correto” ou “incorreto”.

Utilizar termos como “economia” e “mercado”, por exemplo, para motivar falas sobre toda e qualquer atitude governamental que apoiamos ou deixamos de apoiar, não se trata, pelo que tenho observado, de uma genuína tentativa de diálogo – mas somente de uma tentativa simplista de justificar o que, tendo em conta critérios humanísticos, é muitas vezes injustificável. A economia, afinal, não é uma divindade pura para a qual recorremos em qualquer situação – e o mercado, convenhamos, não é uma entidade etérea para a qual devamos devotar as nossas vidas. O ser humano é muito, mas muito mais que uma cifra.