Sobre liderança

0
134

Inegavelmente, vivemos em um tempo no qual os líderes são escassos.Seja no campo público ou privado, cada vez mais é difícil encontrar sujeitos que tragam consigo qualidades essenciais que os tornem referenciais em relação aos anseios da coletividade. Fala-se muito que é necessário trabalhar em equipe, que é fundamental ouvir o outro antes de tomar atitudes e analisar todas as vicissitudes do cenário para que haja uma plausibilidade nas decisões.

Mas quando se percebe, por exemplo, que são vários os governantes e os administradores em geral que não sabem lidar com a diferença, concentrando funções e prerrogativas que por vezes obstaculizam o funcionamento da organização da qual são peças-chave, vê-se que esse discurso do “trabalho em equipe” está muito longe de ser algo mais que um discurso.

O fato é que todo o líder deve buscar uma unidade com as pessoas com as quais convive e tem como subordinadas no exercício das suas funções.Porém, essa busca pela unidade não significa uma busca pela uniformidade.Explico. Unidade significa aceitação da diferença, afinação de singularidades na perseguição de um propósito organizacional.Uniformidade, por outro lado, significa anulação das diferenças, imposição de camisas idênticas para indivíduos que são essencialmente diversos.

Quando um líder consegue trabalhar com a unidade, seu caminho certamente está correto, já que há a aceitação da diferença – o que é básico para toda e qualquer ordem que se queira minimamente democrática. Contudo,quando um líder apenas consegue trabalhar com a uniformidade, sua rota pode até alcançar alguns objetivos, mas a destruição do seu frágil castelo de cartas sempre será iminente, uma vez que o sufoco da anulação das diferenças causará danos irreparáveis em seu papel.

Claro que é difícil conviver com o outro, quanto mais quando esse outro traz concepções de vida e de mundo completamente diversas das suas. A vontade de calar sua voz, portanto, com a prática de um “discurso de medo” que no final das contas se trata de um “discurso de poder”, aparece em vários e vários momentos.Trata-se de uma saída fácil que trará alguns resultados, mas peca da base ao topo quando lida com os indivíduos de forma excludente e rancorosa, promovendo duas consequências básicas: a saída dos sujeitos dessa organização ou a sabotagem que esses mesmos sujeitos acabarão por promover diante da liderança que encabeça a mesma.

Por que haverão tais sintomas?É simples notar. As pessoas aguentam durante algum tempo a pressão e as manobras que estrangulam seu bem-estar, mas quando essas ações chegam a determinado ponto, ou abdicarão da sua posição na organização ou farão todo o possível para destituir a liderança que se apresenta. Claro que no meio dessas duas alternativas existirá toda a sorte de aproveitadores e bajuladores – aqueles que, por um ou outro motivo geralmente conectado com uma extrema fraqueza de caráter, vendem sua dignidade com a intenção de angariar alguns benefícios. Mas até estes hora ou outra cairão, pois a estrutura que suas ações sustentam se encontra viciada pela intenção da uniformidade.

A atual crise vivenciada na política nacional espelha de modo muito claro essas deficiências no quesito liderança: quando a pauta de uma fala exclui totalmente aquelas ideias que se distinguem da sua, não reconhecendo erros e apenas insistindo em um mais do mesmo intermitente, o decréscimo da sua legitimidade é o resultado lógico.Precisamos de líderes que saibam trabalhar com a diferença e que não busquem a uniformidade, mas a unidade. Somente nessa esteira é que se constrói uma organização que, com objetivos claros e distantes de intrigas palacianas, consiga efetivamente atingir seus objetivos – porque todo aquele que seguir de forma contrária, cairá mais dia menos dia, levando consigo toda uma sorte de propósitos enforcados pelo medo, pela insegurança e pela ausência de diálogo.