Sobre Luciano Alves (Ou “Da minha ausência de talento musical”)

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Confesso: sou um músico frustrado. Tentei. Mas não deu. Tenho testemunhas: Ranieri Grassel, Dênis Machado e Antônio Fontoura. O Ranieri, com sua veia bossa-novista com ares de U2, sabe que certa vez pensei em comprar um cavaquinho para montarmos “algo sambístico”. O Dênis, meu ex-professor de violão com um quê de rock inglês e sotaques do Humbertão (Gessinger), presenciou minha desilusão ao sequer decorar a introdução de Nothing Else Matters do Metallica. Já o Antônio, meu parceiro em algumas incursões nativistas, cantor e compositor que de modo algum tenciona verves urbanas (mas que não as nega, o que é um baita feito), sabe bem que meus dotes nas cordas mal ultrapassam um lá menor seguido de um sol e um fá. Consequências? Hoje apenas sou violeiro de cervejadas (e olhe lá).

Por tudo isso (e por canções que fiz para ex-namoradas que não deram muito certo – tanto as canções quanto os namoros), admiro pra caramba quem realmente é músico. Mas convenhamos: ser músico não basta. A técnica pela técnica, mesmo grávida de sabores, sempre esbarra em minúcias que se assemelham a planilhas contábeis. Possui tanta vida quanto uma taça de vinho branco. É preciso mais. É necessária aquela quietude que você tem após ler Mario Quintana. Alguns dirão que é raro encontrar esse “mais” nos dias em que vivemos. Falarão que a arte se encontra em contínua decadência e que “talentos” (posiciono essa palavra entre aspas porque não faço ideia do que significa) não passam de mitos. Mas acho que essas pessoas estão erradas. Ou ao menos pouco informadas. Em se tratando de canções, artistas que promovem a fusão da música com “algo mais” existem. E tenho uma prova. “Qual”?, perguntará algum leitor embasbacado com meu palavrear. Esta: Luciano Alves.

Conheci o Luciano no Acid Rock Festival desse ano (o qual ocorreu em janeiro, no Sítio Água Doce). Fiquei impressionado de imediato. Quando da sua apresentação, uma emoção imensa me tomou em vários momentos. E em casa, ouvindo seu CD com calma, descobri que minha sensação não foi coisa de instante, mas uma reação quase espontânea de certa sensibilidade que trago ao me deparar com algo belo e verdadeiro. Natural de São Leopoldo, atualmente radicado em Porto Alegre, Luciano Alves gravou seu primeiro disco entre setembro e dezembro de 2010. Suas influências, comungando uma estética acústica e elétrica do folk rock dos anos 60 e 70, resultaram em uma massa sonora de muitíssimo bom gosto, certamente respingada por Bob Dylan, Neil Young, Leonard Cohen, The Band, Eric Clapton, The Beach Boys, Nick Drake, The Beatles, Joni Mitchell, Cat Stevens e Belchior.

Com esse cartão de visitas, o cantor/compositor consegue ligar neurônios e ventrículos de uma forma que impressiona. Canções como “Seres humanos” (“O que sobra da vida quando se abre mão de tudo / E ao invés de uma ponte se encontra um muro / De egos tão gigantes e espíritos tão diminutos?”) e “Enquanto isso” (“Enquanto físicos discutem os planos de Deus / Filósofos tentam explicar a vida aos seus / O padre tenta ajudar, mas a razão / Esbarra no muro da Igreja”), expressam uma percepção apurada sobre o que é viver em uma realidade destroçada de quaisquer possibilidades de pureza. Ainda que por vezes sua música pareça furtada de quaisquer otimismos, a voz do Luciano (entrecortada com seu semblante de poeta beat) penetra tímpanos e sinapses, trazendo consigo verdades nem sempre perceptíveis àqueles que vivem no pranto das agendas.

Claro que Luciano Alves não é uma prova/exemplo solitária de que o incognoscível “talento” habita nosso planetinha. De cabeça, poderia citar outros três camaradas musicais: Renato Godá, Vitor Ramil e Marcelo Camelo. Mas o diferencial do Luciano, com seus versos aparentemente despojados, vestidos com uma sonoridade que parece simples (e se revela complexa já na segunda escuta), é esse cheiro de vida, esse cheiro de sangue que pulsa em suas letras e acordes – francos em suas razões e sinceros em seus apelos de peito. Longe de se intitular sábio ou virtuoso, distante de qualquer certeza que não aquela conectada com os ramos da pele e da arte, Luciano reconhece que o “conhecimento não é sabedoria” e que o “discernimento não consegue distinguir nada além daquilo que convém pro próprio nariz”, como canta em “Caminhando” – canção que dá título ao seu disco.

Não sei se Luciano Alves é o “Bob Dylan latino-americano” (como fala o cartaz do show que ele realizará neste sábado, 11/08, a partir das 21h no Canecão Beer de Santo Ângelo). O que sei é que sua poética, entre Roberto Piva e Walt Whitman, traça com melancolia e esperança os contornos desse tempo árido, líquido e incerto que estampa os jornais. Em razão disso e muito mais, abandonei minha pretensa carreira de músico. Vez em quando, porém, arrisco algumas notas vesgas, rabisco poucas estrofes e canto como um gato no cio para as paredes do meu quarto. O problema é que até as paredes parecem reclamar dos meus ganidos. Por isso concluo: saber que não se sabe é uma das maiores qualidades que um ser humano pode ter. Melhor (mesmo) é deixar com quem entende.