Sobre protocolos

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No dia 22 de dezembro de 2012, meu amigo Ranieri Angst Grassel me disse algo interessante. Pelo Facebook, conversava com ele acerca da formatura da minha namorada, Naziane Cristina Timm, que havia ocorrido na noite anterior. Falei que quebrei o protocolo. Como tinha a intenção de entregar o simbólico canudo para a Nazê de uma forma marcante, em vez de simplesmente dar um abraço e um beijo na bochecha da moça, tasquei um beijo na boca da minha lôra na frente de mais de mil pessoas, com direito a close no telão, salva de palmas e tudo o mais – segundo me contaram, visto que entrei em uma espécie de transe naquele instante. Pois bem. Ao narrar isso para o Rani, ele largou essa: “o protocolo só é bom até onde não obstrui o sangue”. Conhecendo meu amigo, imediatamente interpretei “sangue” como sinônimo de “vida”, sendo que foi aí que me dei por conta da profundidade daquilo que instintivamente fiz na noite do dia 21 de dezembro de 2012.

Convenhamos: todos adoram demonstrações públicas de afeto. Não digo que gostem de um telecar, por exemplo – se alguém inventar de me mandar um telecar em algum momento da minha vida, peço para o Don Corleone executar esse cidadão. Me refiro, pelo contrário, ao fato de que aparentemente apenas demonstramos carinho e amor pelas pessoas que consideramos quando estamos em “ambientes propícios” ou quando nos encontramos “entre os nossos”. Mas fazer isso em plena formatura de Direito, é uma espécie de “quebra”. “Quebra”, nesse sentido, significa remar contra a corrente – e o troço do protocolo que finquei para a estratosfera ao beijar a Nazê na formatura ilustra bem meu pensamento.

Mas sabe de uma coisa? Não me arrependo. Gosto dela. Tudo bem que talvez possamos vir a acabar algum dia. Isso acontece. É a vida. Mas a realidade é que naquele momento – e mesmo nesse – meu sentimento foi e é franco. Como diz o Lulu: “se amanhã não for nada disso / caberá só a mim responder / e eu vou sobreviver / o que eu ganho e o que eu perco / ninguém precisa saber”. Sacou? É esse o espírito da coisa. Se você esperar uma ocasião especial para tomar aquele vinho bacana que tem guardado na estante, é possível que o dito se transforme em vinagre no exato momento em que for pra taça. Não se trata de precipitação. Trata-se de viver a vida como a vida é. “E como a vida é?”, perguntará alguém, certamente algum senhor de idade estupefato com a petulância de um camaradinha de vinte e oito anos. Respondo: “não sei, mas sei que enquanto estiver respirando quero o melhor disso tudo”.

Entende o que estou dizendo? Sei que sim. Tenho buscado clareza nos meus escritos. A verdade é uma: os protocolos que se lasquem. São importantes? Sim, primordiais. Mas como diz meu brother Rani, até o momento em que não obstruem a vida – ou o “sangue”, como ele gosta de referir. Pouco importa sua gradação social. Pouco importa a grana que você tem na conta. O que importa é a vivacidade que você lega para isso tudo. Passou por dificuldades? Beleza, todos passam. Deve sair com um sorriso no rosto desse perrengue todo? Não necessariamente. Se quiser ficar pê da vida, você tem o direito. O que vale é não fingir. O que vale é ser franco. O que, no pesar das moedas, detém alguma importância, são as “quebras” que você praticou para atingir aquele ímpeto instintivo que trazia consigo no fundo do peito e que raras vezes teve a coragem e a desfaçatez de mostrar. Receberá críticas? Claro, todos recebem. Mas certamente esses olhares de boi morto serão de pura inveja e recalque – provindos de seres que aceitaram tanto, mas TANTO, o mundo como ele supostamente é, que esqueceram que trazem um coração no fundo do peito.
Não estou dizendo pra você sair porralouqueando por aí, veja bem. Exemplo: cruzar a Marquês com o som à toda é bacana se você acha que isso é algo que diz de você, que identifica você a partir de quem você efetivamente é. Mas se você faz isso unicamente para atrair a atenção de quaisquer moças que se tornam “fáceis” a partir do minuto em que ouvem um “Ai se eu te pego” bombando no carro – ou se pratica essa coisa para mostrar a turbinância do carango que dirige –, me parece que tem algo errado aí. Não sou contra a “caça”. Todos devem buscar prazer. Todos devem garimpar beleza. Mas quando você nubla quem você é para partir em uma empreitada que talvez traga essa coisarama toda pra você, a “Síndrome do Auto-engano Futuro” é inevitável. O que é essa joça? Seguinte: você faz e acontece, fatura o quê ou quem bem entende, mas no final das contas não tem para quem contar os temporais que afetam sua cabeça. É algo horrível.

Assim é que não me arrependo da “quebra” de protocolo que fiz na formatura da minha namorada. Foi algo de peito. Foi algo que “disse de mim”, se quer uma definição “mais psicológica” ou afeita aos magrões da teoria literária. Não estou dizendo para você fazer o mesmo, até porque não sou exemplo pra ninguém. Mas é inevitável constatar que momentos como o que descrevi, tatuados por uma publicidade involuntária, marcam os sujeitos envolvidos. Minha recompensa é olhar para a Nazê e perceber que estou ao lado de uma mulher linda que me faz bem e para a qual espero igualmente fazer bem por muito, muito tempo. Se um dia as coisas virarem no contra-senso do meu atual sentir, sem problemas. Vale o amor que você francamente praticou e demonstrou, considerando-se que, penso eu, é esse o sinal que devemos deixar na vida. Protocolos? Deixe eles: “o protocolo só é bom até onde não obstrui o sangue” – já dizia meu camarada.