Sobre uma e outra coisa

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Reducionismo: principal sinal de que você não deve discutir algo com um indivíduo.

Sabe aquele cara, por exemplo, que relaciona “barba” com “relaxamento”, “trabalho” com “honestidade”, “bolsa família” com “vagabundagem”, “crítico” com “radical”, “cético” com “zombeteiro” e pouco ou nada se interessa por qualquer análise sobre o que falou?

Pois é. Conheço muitos cidadãos do tipo. Mas que nada: melhor deixar que ajam como pinschers, latindo pras formigas ou pras margaridas.

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A Catedral de Santo Ângelo é belíssima. Isso é fato. Mas sempre colar uma foto da Catedral quando se quer fazer homenagens ao município, cansa um tantinho. Parece que não existe mais nada a mostrar. Além do mais, quando um símbolo, seja da ordem que for, é exibido incessantemente, perde sua força, tornando-se mero jargão.

Não querendo ser chato, mas o pessoal poderia ser um pouquinho mais criativo. Ou, quem sabe, desbravar outros ângulos da cidade. Garanto que não faltam referências para que exista essa possibilidade.

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– Ele morreu porque usou drogas.

– Ela está nervosa por conta das provas.

– Ele está triste porque a esposa pediu divórcio.

– Ela age assim por não ter educação em casa.

Esqueçam esse blábláblá.

A vida é muito mais complexa. Rotular é fácil. Reduzir, coisa simples. Mas encarar o teor dos verdadeiros problemas que nos possuem, que nos levam para um ou outro rumo, é algo que demora, que exige pensamento, problematização e principalmente autocrítica.

Talvez também exija uma espécie de sensibilidade neuronal, um senso de abertura que não delimite fronteiras unicamente nas janelas dos nossos quartos ou nos estreitos contornos dos nossos umbigos.

O mundo não acaba nas telas dos nossos celulares e computadores.

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Todos os eventos são imbatíveis. Toda pessoa gira pelo circuito de festas. Todo boteco tem a melhor happy hour da cidade. Todo casamento é o mais esperado da temporada. Toda miss isso ou aquilo é linda, educada e simpática. Todos citam Dalai Lama como fonte de inspiração.

Camaradas: cansa esse tipo de abordagem pomposa da sociedade. Do jeito que a parada anda, dá até pra montar um aplicativozinho de iPhone que complete com adjetivos barrocos e rasga-sedosos o troço que você quer escrever.

Sai pra lá, jacaré!

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Dias de chuva e frio inspiram total e verdadeira vontade de não falar absolutamente nada, enfiar o corpo embaixo das cobertas ou no canto do sofá, fazer um café e assistir filmes longos, cinzas e densos, por mais que pareça muito Bridget Jones.

Alguns podem dizer que isso cheira como tristeza, dissabor. Discordo. Estou com Cioran: “em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a cuspir e os lírios abririam um bordel”. Aliás, sempre considerei essa coisa de “melancolia” como uma espécie de alegria rasa, contemplativa, dosando interior e exterior na medida certa.

Pessoas muito efusivas são assustadoras. Serenidade ainda é uma qualidade, principalmente se pincelada com boas pitadas de inquietação e desilusão. Necessitamos nos desobrigar da felicidade. Sozinha, ela não dá conta de coisa alguma.

Desassossegos tranquilos são fundamentais.