Social-democracia e cidadania

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Social-democracia
Defender os direitos sociais não é defender o lulopetismo e defender o Estado Social não é defender um Estado Socialista: é defender os direitos fundamentais e não aceitar visões que objetificam o ser humano a partir de noções puramente economicistas, como se tudo pudesse ser reduzido a um denominador do mercado e nada mais.
Defender o humanismo, o laicismo e o secularismo, não é defender o fim da dimensão espiritual da humanidade: é reconhecer que é possível a conquista de alguma ética e alguma moral independente de noções dogmáticas e com vínculo religioso, confiando em um desenvolvimento baseado no progresso científico e na criatividade em proveito de todos.
Tais defesas, enfim, não negam a complexidade do real, mas não se apoiam em um estrito realismo que breca qualquer possibilidade de mudança: não negam o liberalismo, mas veem que apenas ele não dá conta dos problemas sociais; não negam os entraves do Estado, mas veem que sua diminuição insensata pode afetar a materialização dos direitos de cidadania; não negam a espiritualidade, mas veem que a construção de uma cultura de responsabilidades mútuas com base na razão pode auxiliar na superação dos problemas coletivos enfrentados pela civilização.
Em suma, é essa a visão política básica que trago há muitos anos e que respalda muito do que falo em se tratando do tema.
Por falta de conceituação melhor, defino esse posicionamento como “social-democrata progressista” – e deixo isso claro apenas para evitar interpretações equivocadas e reducionistas quanto ao que digo ou deixo de dizer daqui em diante.

Cidadania
Fala em flexibilização dos direitos trabalhistas para o cara que não tem carteira assinada e nunca teve férias, embora trabalhe dez horas por dia por pura necessidade.
Fala em diminuição dos gastos com educação para o menino que estuda em uma escola caindo aos pedaços e para os professores e servidores mal pagos que fazem das tripas coração pra dar conta do recado.
Fala em cortes na cultura para o cidadão que não sabe o que é uma biblioteca e que não tem a menor ideia do que seja um cinema ou uma peça de teatro.
Fala em déficit na previdência para o aposentado que vive com um benefício de miséria e não consegue comprar todos os remédios que precisa porque muitos estão em falta na “farmácia popular”.
Fala em alta de impostos para o pequeno empresário que mal tem condições de tocar seu negócio sem uma dependência canina dos bancos e seus juros estratosféricos.
Fala em diminuição do Estado para o adolescente que mora numa rua sem asfalto, em um bairro sem saneamento básico ou iluminação e que conta com a mínima segurança pública em seu dia a dia.
Fala em teto de investimentos na saúde para a senhora que precisa esperar seis horas na fila de um hospital pra fazer uma mamografia e para a gestante que perde seu bebê antes de ter auxílio médico porque tudo fica muito distante da sua casa.
Fala tudo isso para toda essa gente e depois me conta mais sobre sensibilidade e noção quanto ao sofrimento alheio – antes de defender a perda de direitos de cidadania que ainda nem chegaram a se concretizar.