“Stairway to Heaven?”

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Parece no mínimo estranho afirmar, em pleno século XXI, que tudo quanto existe foi criado por Deus em seis ou sete dias. Mas uma pesquisa nacional realizada pelo Ibope BUS em dezembro de 2004 verificou que 31% dos brasileiros crêem que Deus criou o ser humano e todas as espécies nos últimos dez mil anos, sendo que apenas 9% dos entrevistados opinaram no sentido de que o ser humano se desenvolveu ao longo de milhões de anos e Deus não esteve envolvido no processo. A pesquisa igualmente revelou que 54% dos brasileiros acreditam que o ser humano se desenvolveu ao longo de milhões de anos e Deus planejou e dirigiu esse processo. Nesse sentido, o dado mais relevante demonstra que 89% dos brasileiros acham que o criacionismo deve ser ensinado nas escolas, considerando-se que somente 8% pensam o contrário.

Somando esses números com outra pesquisa liderada pela professora Débora Diniz da Universidade de Brasília, a qual é apresentada na obra “Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil”, percebe-se o quanto a religião está entranhada no ensino brasileiro. Baseado nas vinte e cinco obras de ensino religioso mais utilizadas nas escolas públicas do país, o estudo apontou, segundo as palavras da sua coordenadora, que “o estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”. Analisando os títulos mais aceitos pelas escolas do governo federal, segundo informações do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, percebeu-se que a imagem de Jesus Cristo aparece oitenta vezes mais que a de uma liderança indígena no campo religioso, doze vezes mais que o líder budista Dalai Lama e ainda tem um espaço vinte vezes maior que Lutero, sem levar em conta que Calvino nem mesmo é citado.

Além disso, a homossexualidade é referida em uma das vinte e cinco obras analisadas como um “desvio moral”, uma “doença física ou psicológica” que “não se revela natural”, sendo causada por “conflitos profundos” – ainda que existam mais de mil e quinhentas espécies conhecidas que demonstram comportamento homossexual. Mas a informação mais tenebrosa diz do fato de que o estímulo ao preconceito religioso chega ao ponto de relacionar uma pessoa sem religião ao nazismo, sendo “sugerida uma associação de que um ateu tenderia a ter comportamentos violentos e ameaçadores”, segundo a pesquisadora Débora Diniz, para a qual “os livros usam de generalizações para levar a desinformação e pregar o cristianismo”. Uma das obras, ao tratar dos agnósticos, estampou a pergunta “Quem matou Deus?” com a fotografia de um campo de concentração nazista.

Todos esses dados se chocam com a previsão da Lei de Diretrizes e Base da Educação, em vigor desde 1997. Apesar de regulamentar o ensino religioso nas escolas brasileiras, a lei dispõe também que deve ser garantida a justiça religiosa e a liberdade de crença no ensino, o que está previsto na Constituição Federal. Quanto a esse ponto, a antropóloga Débora Diniz afirma que “há uma clara confusão entre o ensino religioso e a educação cristã”, a qual é confirmada pelo fato de que “cristãos tiveram seiscentas e nove citações nos livros, enquanto religiões afro-brasileiras, tratadas como ‘tradições’, aparecem em apenas trinta momentos”. O que ocorre, consoante outra professora envolvida na pesquisa, a psicóloga Tatiana Lionço, é que todo material didático nacional passa pela avaliação de uma banca de profissionais do Programa Nacional do Livro Didático, vinculado ao Ministério da Educação, com exceção das obras de ensino religioso, as quais ficam sob responsabilidade das secretarias estaduais de educação.

A pesquisa realizada entre março e julho de 2009, encomendada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura à Universidade de Brasília e ao Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, analisou obras de ensino religioso de grandes editoras nacionais líderes no segmento, como FTD, Ática, Saraiva, Moderna, Dimensão, Scipione, Vozes, Paulus, Paulinas, Vida e Loyola. Indicadas tanto ao ensino fundamental quanto ao ensino médio, as obras demonstram uma hegemonia cristã de 65% em seu conteúdo, contra apenas 3% de referências às religiões espíritas ou afro-brasileiras, o que talvez seja um indicador do fato de que 80% da população brasileira se declara católica. Entretanto, se a Lei de Diretrizes e Base da Educação, fundamentada na Constituição Federal, refere que o ensino religioso, embora obrigatório nas escolas, deve promover a diversidade e vedar o proselitismo, vê-se que existe um claro descompasso entre a disposição legal e a realidade do ensino religioso brasileiro.

Percebe-se diante disso que a discussão entre evolucionistas e criacionistas, a qual vez ou outra reaparece na mídia, não reflete diretamente as consequências muitas vezes nefastas que o ensino religioso mal aplicado pode gerar nas crianças e adolescentes brasileiros. Mesmo que o senso comum tenha sedimentado a tese de que a bondade é dependente da religião, as evidências contrariam essa afirmação. Uma pessoa de fé, que baseia sua crença em um livro que considera sagrado, pode perfeitamente fazer ataques com bombas, decapitar seus inimigos, apedrejar mulheres, queimar pessoas em fogueiras, crucificar outros tantos ou lançar aviões contra edifícios por pura discordância teológica. Blaise Pascal, inclusive, disse que “os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa”.

Por essas e outras, fica a pergunta: haverá alguma “Stairway to Heaven” para o ser humano?