Tempo transitivo

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 Somos de um tempo onde a liberdade está vestida com uma precária roupagem capitalista, onde a cultura se transformou em mercadoria da indústria do entretenimento, onde as pessoas acreditam ser aquilo que podem comprar e onde o desenvolvimento nada tem a ver com uma existência melhor.

De um tempo onde a indústria dos tranquilizantes químicos está entre os setores que têm crescimento cada vez maior nas últimas décadas, onde os serviços de segurança privada são mais procurados do que nunca, onde os planos de saúde consistem numa obrigação para quem pode pagá-los, onde a pornografia aparece como um grande negócio para solitários, onde seitas que oferecem salvação com preço módico proliferam aos milhares, onde livros e artefatos de auto-ajuda vendem fórmulas para uma felicidade repleta de ânsia e onde drogas detêm um consumo elevadíssimo por todas as classes sociais. Um tempo onde a infelicidade se eleva a proporções gigantescas e atinge um contingente tão amplo que acaba sendo absorvida pelo sistema no qual estamos inclusos, tornando-se mero objeto de manipulação mercantil.

Somos de um tempo onde se diluiu a distância entre crise e normalidade, onde a possibilidade do desemprego, a violência sempre presente, a preocupação com o desamparo em caso de doença ou com a chegada da velhice e as dúvidas sobre o futuro dos filhos, trazem a sensação de que uma vida com um horizonte amplo, sólido e aberto se torna cada vez mais distante. Somos de um tempo onde predomina uma impressão desestruturante, um desgoverno das expectativas, um sentimento do provisório, uma incerteza intermitente como pano de fundo para todas as nossas ações.

De um tempo onde a elite está sempre pensando no próximo bom negócio e o povo planejando a estratégia de sobrevivência para o próximo dia. Um tempo onde se aprofunda o fosso entre o conformismo do pensamento, a pobreza da comunicação e a profundidade da crise na qual estamos imersos. Tempo onde os fatos cotidianos debilitam os laços de sociabilidade civilizada, fazendo ruir todo um regime comum de valores que tinha como certa a mobilidade social ascendente e a ideia de um futuro em construção.

Somos de um tempo onde o desempenho das bolsas de valores, a entrada de capital estrangeiro no país e as oportunidades de bons negócios que se abrem aqui e ali, ocultam com números o sofrimento humano crescente por todas as partes do globo. De um tempo onde no espaço se expandem as zonas esvaziadas de qualquer cobertura do direito, onde a segregação das oportunidades destina os pobres do presente à certeza da pobreza futura, onde os valores, dominados pelo discurso econômico, validam a desigualdade com a finalidade de estimular um esforço geral que faça crescer a lucratividade dos empreendimentos por meio de uma motivação constante daqueles que dependem de certas empresas para sobreviver.

Um tempo onde a globalização do grande capital trouxe a fragmentação do mundo do trabalho, a exclusão de grupos humanos, o abandono de continentes e regiões, a concentração da riqueza em certas corporações e países e a fragilização da maioria dos Estados. Tempo onde quanto mais a rentabilidade capitalista descola das atividades produtivas, mais essa rentabilidade descola também das necessidades humanas, as quais continuam a se expressar na forma de necessidade de trabalho e bens essenciais para que a própria vida seja possível.

Somos de um tempo onde a economia transforma o mundo, mas o transforma apenas em mundo da economia. De um tempo que esqueceu o próprio sentido do tempo e conta as horas como quem conta o saldo da conta bancária ou os trocados para comprar o pão da manhã. Um tempo no qual tudo se têm e no qual tudo se perde unicamente porque tudo se tornou questão de lucro para acalmar a infelicidade intermitente de cada dia que nasce.

Acima de tudo, de um tempo desprovido de tempo para pensar, pois se nos déssemos conta de tudo quanto nosso tempo nos traz a cada instante de vida desperdiçado em uma vida feita para o consumo, jamais aceitaríamos essa vida que vivemos para um tempo ausente de tudo aquilo que é humano, preenchido pelo cair de moedas que abafam a angústia incessante desse tempo transitivo.