Todo mundo sabe

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Todo mundo sabe que se fosse para realmente auxiliar pequenos e médios empresários, bem como a população das classes média e baixa, o ideal seria uma Reforma Tributária. Todo mundo sabe que se fosse para mexer na falida estrutura da democracia representativa brasileira, o ideal seria uma Reforma Política. Todo mundo sabe que se fosse para realavancar o Estado a partir de uma perspectiva contábil, o ideal, primeiramente, seria uma auditoria totalmente transparente da dívida pública. Todo mundo sabe que se fosse para mexer substancialmente no Direito do Trabalho, o ideal seria fazer isso a partir de uma discussão longa, clara e pormenorizada com todos os setores envolvidos, tal qual aconteceu antes da sanção e posterior vigência do atual Código de Processo Civil. Todo mundo sabe que se fosse para economizar gastos públicos, o ético seria o Estado cortar em sua própria carne, reduzindo regalias e penduricalhos que favorecem os altos escalões dos servidores públicos e os políticos de carreira. Todo mundo sabe que se fosse para mudar a Previdência, o correto seria levar em conta a nossa realidade social: um país com um povo que majoritariamente vive em condições de subcidadania, sem acesso aos serviços básicos de saúde e educação – e sem desfrutar de uma estrutura urbana condizente com os tributos que paga, sofrendo diariamente com a violência dos marginais, sejam eles pobres ou endinheirados.

Todo mundo sabe de tudo isso, reconheçamos.

Mas daí surge a pergunta: por que, mesmo sabendo disso, existem pessoas que aplaudem as medidas do Governo Temer unicamente por receio de ser “pró/esquerda” – ou, pior ainda, ser “pró/Lula”? Minha gente: nunca votei no PT para a Presidência da República, desaprovo totalmente inúmeros atos praticados pelos governos petistas e também vejo que a esquerda brasileira não está sabendo agir de modo coerente diante do desmonte do pouco Estado Social que temos. Acho boba essa demonização da Lava Jato e acho tosca tanto a “santificação” de Lula ou Doria quanto a “devoção” à Bolsonaro. Considero tudo isso essencialmente ridículo, show business, espetáculo para plateias que parecem viver em uma eterna adolescência. Mas nada, nem mesmo o reconhecimento que trago diante da peleguice e da desfaçatez de inúmeros sindicatos, faz com que eu seja favorável a isso tudo que as quadrilhas do Planalto e do Congresso estão fazendo com o Brasil.

O que ocorre é um escárnio, uma afronta, algo que, fôssemos um país pequeno e menos bobo, desencadearia uma revolução. Aliás, a questão não é essencialmente aquilo que está sendo feito, mas principalmente o modo como está sendo feito, que é semelhante ao que ocorre em estados de exceção – ou seja: em regimes ditatoriais.

Então não me venham com lorotas ao repetir a briga de A contra B que vivenciamos nas eleições de 2014 ou no tumultuado 2016. Isso não é verdade. O que está em jogo são os direitos de cidadania, é a dignidade humana e a possibilidade de o Brasil continuar ou não sendo uma mera colônia para interesses estrangeiros que nutrem aquele 1% que verdadeiramente manda no país e está muito bem representado no Parlamento brasileiro. É isso que está em jogo – e quando o que está em jogo é o futuro, a gente precisa destruir os preconceitos e alinhar as discórdias para que, talvez e apenas talvez, possamos construir um mundo melhor.

Sou um cara das palavras, não sou um cara de gritos, atos e tumultos – e as únicas coisas que sei fazer razoavelmente bem são falar e escrever. Então, se alguém chegou ao final desse textinho e está pensando “ai, esse é só mais um que fala e fala e nada faz”, digo o seguinte: meu modo de fazer é falar e escrever – e tenho a confiança plena de que isso também auxilia na transformação do amanhã.

E ponto final.

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