Trinta anos

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Amanhã, 17 de agosto de 2014, completo trinta anos – e o fato de “arredondar uma idade” para finalmente sair da casa dos vinte me deixa um tanto angustiado.

Mas não se trata de uma angústia boba – daquele tipo que parece crise existencial adolescente ao som de Joy Division – ou de uma angústia pesada – do gênero que traduz suas linhas nos poemas de Álvares de Azevedo.

Pelo contrário, trata-se de uma angústia serena, repleta de lembranças e de um amadurecimento que me chegou pouco a pouco no transcorrer desses anos em que habito esse pequeno planeta que dá voltas e mais voltas pela galáxia sem que saibamos a razão disso fora das plagas do simples acaso.

Alguns me dizem que não há motivo para alarde ou preocupação em função dessa idade.

Falam que sou jovem e que tudo, absolutamente, ainda está por acontecer.

Esses dias, inclusive, me disseram que “a vida começa aos trinta” e que o mundo, a partir de agora, terá um gosto diferente – seja lá o que isso signifique.

Quando ouço tais palavreados, sinto um misto de raiva e deboche, como quem sabe que uma pessoa que admira está propalando bobagens ao deus-dará e apenas fecha o rosto com um sorriso amarelo, parecido com aquelas paisagens que estampam paredes de quartos de hotel.

Não sei o que essa reação descerra.

Talvez valide certa prepotência de minha parte ou somente paire rubricas em minha incessante mania de berrar “não!” ao senso comum e às frases feitas, embaladas e assépticas como gororobas de micro-ondas.

Afinal, assim como alguns referem que “a vida começa aos trinta”, outros aduzem que “a vida começa aos sessenta” – que é, sem apelações, 30+30.

Fica a pergunta: a vida começa agora, na margem das três décadas de existência, ou demorará mais três décadas para enfim mostrar sua caricatura real?

Simplesmente não tenho ideia – e no meio desse pensar todo, sinto que meu ânimo, minhas dúvidas e objetivos estão mais para algo infantil que para uma treta adulta.

Ou seja: o amadurecimento que comentei anteriormente é pura encenação, rasgão de inconsciência que tenta me convencer sobre dado funcionamento cerebral e sentimental que atualmente se dá com alguns picos melhores que aqueles de certo tempo atrás, já que, na mais afortunada hipótese, a única coisa que aprendemos com o correr dos anos é medir com um elevado grau de inconsistência o campo de probabilidades que emergem como consequências de nossos atos.

Hoje, por exemplo, sei que, se tomar um baita trago no domingo, estarei podre para trabalhar na segunda, com aquele renitente gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Também sei que a grana para pagar as contas nunca é suficiente e que por vezes mais vale você estar bem consigo mesmo que lastimar por não ter agarrado aqueles sonhos de grandeza capengas que vez ou outra cruzam pela sua cabeça.

Acho que igualmente aprendi um ou outro ponto relevante sobre as mulheres – mesmo que, nesse quesito, o índice de erros soterre aos borbotões as possibilidades de acerto – e alguma ou outra verdade sobre ter quase dois metros de altura e jamais se sentir confortável em poltronas de ônibus ou aviões.

Por isso é que hoje, antes de frisar meus questionamentos existenciais ou levar em conta aquele medo de ETs que vez ou outra ainda me assola, procuro rir da minha absurdidade e felicidade em simplesmente estar aqui, conhecendo gente nova, conhecendo coisas novas e andando pelas ruelas e estradas desse torrão de rocha e metal no qual nasci.

Pelo sim e pelo não, de algo tenho certeza: inicio a casa dos trinta com a convicção de que sem bom humor e uma boa dose de sacanagem sadia nada faz sentido algum. Se a vida, como disse Shakespeare, é uma história de som e fúria contada por um louco, o negócio é entornar mais um gole e suspirar: “É isso aí!”.