Underpressure

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Imaginei uma estorinha. Quase uma fábula, ainda que sem grilos falantes. Não é lá muito talentosa – assim como eu. Mas acho que tem um quê interessante. Se passa em uma sala de aula parecida com qualquer sala de aula. Não imagine, porém, uma sala de aula muito chique, daquelas de filme americano que tem um take em colóquios de Harvard. Trata-se de uma sala corriqueira – bem classe média. Imagine então umas cinquenta cadeiras ocupadas em um ambiente iluminado por fluorescentes. As pessoas estão sentadas em filas e não existe ninguém ministrando uma palestra ou qualquer troço parecido. Contudo, por um motivo que a falta de criatividade me impede de deduzir, essas pessoas falam e falam, como se estivessem imbuídas de uma necessidade sem par de jogar para fora gases intestinais.

Um diz que o sistema é opressor. O emprego oprime, o cartão de crédito oprime, o ponto que bate todo dia oprime e seu chefe só falta carregar um chicote de tão opressor que é. Outro fala que a educação é opressora. As disciplinas não estão de acordo com as suas expectativas, os professores não andam nos trilhos de metodologias pedagógicas holísticas e até a grade curricular é opressora – do contrário, convenhamos, não se chamaria “grade”. Aquele lá, um pouco mais ao fundo, choraminga que os relacionamentos são opressores. As pessoas deveriam se libertar, declarar a morte da monogamia, simplesmente seguir os seus desejos quando e onde bem entenderem porque é isso que fará com que tracem um caminho verdadeiramente feliz e bichano. Muitas e muitas queixas se somam: o prefeito, o vizinho, o Faustão, o Estado, a esposa, a cama, o dicionário, a polícia, as fritadeiras sem óleo e o “barábaráberêberê”. Todos querem uma forma estranha de liberdade semelhante com aquela que toma o sujeito quando ele sonha em fumar e beber sem se preocupar com o fígado e os pulmões.

Nisso,um cara da fila da frente, engraçadinho que só, lança perguntas:

– Acaso o crânio não é opressor? Afinal, é uma caixa de osso que, de certo modo, oprime o cérebro – vai que ele pudesse vazar pros lados e tornar você alguém que manje o que Godard quis em seu último filme. Acaso a gravidade não é opressora? É ela que oprime o corpo contra o planeta, promove seu envelhecimento – em conjunto com várias coisas estranhas, como os radicais livres – e não deixa você sair voando por aí tipo balão de hélio. Acaso a fala e a possibilidade de falar não são tremendas opressões? Se apenas a palavra é capaz de ligar você ao mundo, transformando uma coceira no pé em uma sensação de irritação que fará você largar um PQP, sem ela você não saberia nem porque o dia é o dia e a noite é a noite. Acaso ir e vir, andar mundo afora, aquilo de direito de locomoção, também não são opressões? Você tem tantos lugares para visitar, tantas viagens para fazer, tantas coisas para conhecer, que se sente oprimido por isso e simplesmente não consegue sair do lugar.

O silêncio impera. O ar-condicionado condiciona o calor em 22º graus. Uma ou outra mosca sobrevoa as mexas loiras de uma menina morena. Dois minutos depois, um gordinho que lembra o Jack Black levanta com o dedo em riste e o rosto avermelhado.

– Opressor é você! – esbraveja.

Mas o camarada engraçadinho não se acanha – e antes que os ânimos do local atinjam um clima de linchamento, solta:

– A vida é uma opressão – conclui com calma, pontuando as sílabas ebeirando a gagueira como se tivesse, subitamente, descoberto uma verdade suprema e atingido o nirvana discursivo.

Aqui acaba a cena. Não tenho certeza do que aconteceu depois. Não sei se todos se abraçaram e choraram ou se houve uma matança generalizada. Não sei se resolveram largar dos seus empregos eencucar em uma suruba de dar inveja em Calígula para em seguida queimar todos os livros do planeta. Não sei. O que sei – e essa conclusão não agradará ninguém – é que tenho que escrever um parágrafo final e isso me oprime. Qual a razão de uma conclusão? Circularidade? Estética? Opressão que não acaba mais! Talvez o lance fosse implodir os limites do texto, dar azo aos cânones de Barthes – ou qualquer negócio meio francês que ninguém sem paciência iria entender. Mas também não se trata disso.

Trata-se, por outro lado, de concluir que, verdadeiramente, a opressão é a mãe da vida. Todos vivemos oprimidos de uma ou de outra forma. Certo estava Artaud, como não canso de falar: “a verdadeira liberdade é a ausência de corpo”. Vivemos, enfim, consignados às nossas pequenas prisões – e o estranho é que gostamos delas e temos apreço por elas. Sem essas opressões, aliás, nem pensamentos teríamos, nem amores sentiríamos, nem filhos existiriam. A opressão é nossa matéria fundamental (e todos os demais elementos dessa tabela periódica derivam das suas linhas essenciais), do mesmo modo que a vida é prisioneira da morte. Há como ser diferente? Não, porque até minha estorinha, aprisionada pela página tingida, pelo papel e pela minha reflexão manca, é oprimida, empurrada inexoravelmente na direção de um fim.

O cara engraçadinho da sala de aula poderia arrematar:

– Somos constituídos pelo que nos oprime – e, no fundo, queremos nos tornar justamente aquele ou aquilo que nos oprime.

É isso.