Verso e anverso

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Verso

É incrível como “feriados” e “férias” ainda soam como “alforria”, mesmo que de modo inconsciente. Talvez não tenhamos nos livrado de uma das origens da palavra “trabalho”: “tripalium” ou “trepalium” – “tri” (três) + “palus” (pau) –, termos latinos utilizados para designar um instrumento de tortura usado pelos romanos no final do século VI. Tratava-se de um tripé formado por três estacas cravadas no chão em forma de pirâmide, no qual eram supliciados os escravos.

Quem sabe isso tenha relação com algo óbvio: o fato de que a maioria das pessoas exerce trabalhos mecânicos e servis que pouco acrescentam para suas vidas a não ser um salário no final do mês. Para solapar essa sensação, imagino, é que surgem discursos motivacionais e aquela coisa de “vestir a camisa” da empresa X ou Y, fazendo com que os indivíduos continuem em sua rotina para hipoteticamente terem “sucesso” ou simplesmente para “fazer parte de um grupo”, de “algo maior”.

Por isso não é completamente errôneo afirmar que o tempo muda apenas a forma dos grilhões, fazendo com que o sistema permaneça idêntico em sua raiz. As correntes de ontem se tornaram os horários, a agenda e as cobranças de hoje.

Tudo, no final das contas, justifica-se pela “dialética do senhor e do escravo” de Hegel: em grossas linhas, significa que o “senhor” é “senhor” porque reconhecido enquanto tal pelo “escravo”. Ou seja: a legitimidade do “senhor” provém da aceitação da sua superioridade por parte do “escravo”.

Ora, não é mais ou menos o que enxergamos por aí quando sabemos de trabalhadores humilhados pelos patrões que, por um misto de necessidade e servidão, colocam o rabo entre as pernas e simplesmente baixam a cabeça? Não é também a razão da existência de “puxa-sacos” em qualquer organização corporativa – qual um “escravo” que é capacho do “senhor” para conquistar algumas regalias? Muda o cenário e o palco, modificam-se os conceitos e a linha dramática, mas os personagens e o motor da narrativa não é muito diferente.

Por esse motivo é que a cada dia que passa vejo nitidamente os reflexos práticos do ensinamento de Montaigne ao falar que “pensar é aprender a morrer”, no sentido de que apenas a consciência do “nosso lugar” pode nos levar à superação da “nossa condição”. Problema é que para se dar conta disso é preciso tempo e sobretudo reflexão calma, sopesando ponto por ponto – o que, dada a atribulação contínua na qual vivemos, somente é possível em “feriados” e “férias” (daí é que volto ao início desse pequeno comentário e vejo tudo se repetir em um looping, quer para o bem quer para o mal).

 

Anverso
Povo que não assume a responsabilidade pelos seus atos e fica sempre jogando a culpa no “outro” – seja esse “outro” um político, um patrão ou um conjunto de leis –, sempre será povo explorado, vivendo na contínua ilusão de que um dia os beneplácitos do sistema baterão na sua porta. Quando surgir alguém com uma mão cheia de sementes de girassol, qual um pombo idiota, esse povo gritará: “obrigado!, obrigado!, obrigado!” – enquanto é enrabado e nem percebe.

Tem horas que dá vontade de dizer:

– Tem mais é que se lascar mesmo!