Bukowski, o simpático escroto

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“Então lá estava eu, aos cinquenta e seis anos, na Zona Oeste de Los Angeles às 3h45min da tarde, com duas das mulheres mais lindas da América – ou de qualquer outro lugar –, diga-se de passagem. E com duas das mulheres mais absurdamente difíceis do mundo – elas eram conscientes dos próprios corpos e de como os outros reagiam a esses corpos, e era muito difícil para elas seguir sendo humanas com tudo acontecendo dessa maneira.” Esse pequeno trecho, extraído do livro “Pedaços de um caderno manchado de vinho”, foi um dos raros trechos da obra de Charles Bukowski (1920-1994) publicáveis em um jornal de família. Bukowski, que criava personagens que eram o seu alter-ego, como Henry Chinaski e Hank, pode causar em você dois sentimentos: amor ou ódio. Se você ficar no primeiro grupo, vai querer devorar tudo o que ele escreveu – e que continua tendo lançamentos de obras em português todos os anos, mesmo duas décadas após a sua morte. Já se você cair na segunda opção vai detestá-lo e a todas as pessoas que gostam da sua obra.

Entre aqueles que adoram a obra de Bukowski estão pessoas como Bono Vox (U2), David Coimbra e eu. Aliás, foi justamente por meio de David Coimbra que descobri a obra de Bukowski. Lembro até hoje que mandei um e-mail para o David lá pelos inícios dos anos 2000 (recordo que meu e-mail ainda era do BOL), apresentando-me como um recém-iniciado na faculdade de Jornalismo e pedindo dicas de leitura. Ele me respondeu com uma lista de autores. Eu pesquisei todos os nomes no Mr. Google, e então suspeitei que gostaria do Bukowski. Dito e feito: já se passaram quase 15 anos e sigo lendo tudo o que cai nas minhas mãos assinado por Bukowski.

O primeiro livro que li dele foi “Notas de um velho safado”. Trata-se de uma coluna que ele mantinha em um jornal alternativo, em que sobravam palavrões, descrições de bebedeiras e orgias. Assim que terminei esse livro, passei a ler todos os outros: “Cartas na Rua”, “Numa Fria”, “Mulheres”, “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, “Pulp”, “Ao sul de lugar nenhum”, “Misto-quente”, “Hollywood” e provavelmente mais alguns outros de que não estou lembrando agora.

E por que esse gosto pelo Bukowski? As razões são as mais diversas. Umas das principais são a teimosia e a paixão dele pela própria literatura. Assim como muitos outros, como o já mencionado Jack London, ele sofreu muito tempo até obter algum sucesso literário.

Outra razão é o estilo. O palavrão, tão marcante em sua obra, é usado com categoria. Não é simplesmente o palavrão pelo palavrão. O palavrão vazio, sem sentido nem significado. Ele usa palavrões que acrescentam à narrativa. E, é claro, a criatividade e humor (muitas vezes um mau-humor cheio de humor) são incomparáveis. Não é à toa que muitos ao redor do mundo já tentaram, e ainda tentam, imitá-lo. Mas nenhum consegue chegar aos pés do velho Buk. O velho safado faz uma coisa difícil parecer fácil: escrever com simplicidade, muitas vezes de forma escrota, mas de maneira simpática.

Por essas e por outras que coloquei Charles Bukowski como um dos dez autores que mais me marcaram e influenciaram até hoje. Afinal, ele foi um dos primeiros autores que li que verdadeiramente me influenciaram, tanto no que diz respeito à escrita quanto à filosofia de vida.