Carnavais da vida

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Conheço gente que ama Carnaval e outros que odeiam. Hoje, sou indiferente. Já fui um apaixonado, que achava que iria pular Carnaval até o último dos meus dias, como o guri de 13 anos que pensa que nunca vai conseguir ficar mais do que dois dias sem jogar futebol. Eu achava isso, e já fiquei meses sem chutar uma bola. Claro que, cada vez que vou jogar uma pelada – como as que ocorrem com o pessoal do jornal e da Rádio Santo Ângelo nas quintas-feiras –, sinto-me como um guri de 15 anos. Óbvio que a velocidade, a técnica, o domínio e o tempo de bola não chegam a 1% do que eram há 18 anos. Mas, enfim, o fato é que futebol você pode jogar qualquer dia do ano, enquanto, em relação ao Carnaval, você só tem uma chance. E faz tempo que não caio na folia. Por isso, o que me resta a fazer num sábado à noite de Carnaval? Escrever a minha coluna do JM e lembrar alguns dos Carnavais dessa vida.

Lembro que até 2003 eu sempre entrava nos blocos de Santo Ângelo. Achava isso o máximo – e realmente era. O ápice de um ano inteiro eram aqueles cinco dias em que eu e meus amigos partíamos uniformizados para o bloco Não Interessa (a exceção foi 2002, quando entramos no Boom – que nem deve existir mais) com canequinha atravessada no pescoço às seis da tarde para beber até as dez da manhã do dia seguinte. Até a meia-noite, a festa era no bloco, então, começava a movimentação para ir para os clubes ou para onde acontecesse a festa dos blocos. Não sei como é hoje – dizem que não é mais a mesma coisa –, mas era muito bom. E as pessoas tendem a achar que era degradação total, só pegação, borracheira e tudo mais, mas não, era muito mais que isso. Criava-se uma turma – muitos a gente nunca mais veria novamente –, mas, naqueles cinco dias, todos ali eram melhores amigos e amigos de infância. Eram risadas e mais risadas, que eram lembradas pelo ano inteiro, até o próximo Carnaval.

Em 2004, fui aprender mais sobre o Carnaval. Foi o meu primeiro no Rio de Janeiro. Foi épico. Digno de um “Medo e Delírio em Las Vegas”, do Thompson, em versão carioca. Já escrevi sobre esse Carnaval em algum texto que vaga pela internet – com coisas impublicáveis em um jornal de família, como esse. Fiquei no Rio até o enterro dos ossos e voltei pensando – “uau, isso sim é Carnaval!”. Porém, não sou ingrato. Os Carnavais dos blocos missioneiros eram igualmente divertidos. Em 2005, eu e um primo partimos para Camboriú. Decepção quase total. Foi bom, no geral. Teve tudo que um Carnaval tem que ter, porém, a decepção foi que as festas terminavam cedo, por volta das seis da manhã. Minha indignação foi que em Santo Ângelo, uma cidade teoricamente bem menos badalada, as festas iam até as dez, quiçá onze da manhã do outro dia – isso quando não inventavam emendar um churrasco para o almoço… Bons tempos… Em 2006, foi a vez de Guarapari, no Espírito Santo, após um show dos Rolling Stones em Copacabana… Muita coisa para ser contada em pouco espaço.

Estarei eu velho? De 2007 pra cá, foram poucos Carnavais pulados. Em 2010, repeti a experiência do Rio, fazendo a cobertura do Carnaval para a emissora de rádio da Serra gaúcha para a qual eu trabalhava. Hoje em dia, vou à matiné, levar minha pequena – e provavelmente faremos isso nos próximos anos –, o que tem seu quê de diversão. Mas a grande questão, para mim, é que Santo Ângelo não oferece uma opção para todos os públicos, como é o Carnaval do Rio. Penso que, se saísse hoje no Carnaval com a patroa em Santo Ângelo, me sentiria um tiozão da Sukita. Já no Rio, dava gosto de ver pessoas de todas as idades pegando o metrô para ir para a folia. Bem, e no ano passado, eu nem percebi que era Carnaval, pois estava em Nova York – e muitos nem sabiam o que isso era. Bom, mas quem sabe um dia voltemos para um lugar onde há Carnaval para todos. Quem tem asas, pode voar. E quem tem pé, pode sambar.