Erico, o Verissimo

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O segundo autor da minha lista de dez mais da história é Erico Verissimo. Não se trata de nenhum bairrismo. O Erico não só foi o Verissimo mais famoso e importante da história da família Verissimo, como é o melhor escritor gaúcho e, na minha humilde opinião, o melhor autor brasileiro de todos os tempos. Parem para pensar na sua obra: 45 livros escritos na época da máquina de escrever. Até aí tudo bem. O irônico leitor vai argumentar: qualquer um escreve 45 livros na máquina de escrever. Mas aí você olha a grossura dos livros: “O tempo e o vento”, reunindo os sete livros de “O Continente”, “O Retrato” e “O Arquipélago”, são mais de cinco mil páginas. “Incidente em Antares”, quase mil. Todas escritas à máquina de escrever! E, o mais impressionante: a qualidade de cada livro. Nenhum escritor, antes e depois da era do computador, conseguiu chegar aos pés de Erico Verissimo no Rio Grande do Sul (e, na minha simples opinião, no Brasil). Até o seu filho, Luis Fernando, mesmo tendo à disposição toda a biblioteca do pai, mesmo tendo estudado nos Estados Unidos e na Europa, mesmo tendo toda a estrutura do Complexo Globo de Comunicações, não chegou nem ao dedo mindinho do pai.

Agora, a seguinte questão: como o Erico Verissimo apareceu na minha vida? Essa é uma longa história. Serei sincero: eu só fui ler Erico Verissimo por pura curiosidade pessoal, quando já estava cursando Jornalismo na Unijuí. Não foi por obrigação de prova de vestibular, nem por insistência da professora chata de literatura do segundo grau (Natália, o nome dela, right?). Foi, sim, pelo ano do centenário do Erico, em 2005. Foi pelas palestras que assisti do meu professor de graduação Larry Wizeniewski sobre o Erico que me senti obrigado a ler os seus livros, afinal, se um cara tão foda quanto o Larry era fã do Erico, isso queria dizer que o Erico era mais foda ainda! Ou seja, o fodão dos fodões! E então, lá fui eu ler o “Olhai os lírios no campo”. Não achei nada de mais, pra ser sincero. Mas então, entrou em cena o meu orientador de mestrado, o ex-governador do Rio Grande Antonio Hohlfeldt, da PUCRS. Eu assisti, naquele mesmo 2005, uma palestra em que ele e a Aline Strelow falaram sobre a atuação do Erico Verissimo no jornalismo. E, então, eu fui lá falar com o Larry para pesquisar a vida do Erico nas redações – e assim ganhei o prêmio nacional de Iniciação Científica em Comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E aí as portas da percepção se abriram diante dos meus olhos.

Na máquina de escrever do Erico, voltei para 1905, quando ele nasceu em Cruz Alta. Acompanhei toda a sua infância, até a virada da década de 1930, quando ele se mudou definitivamente para Porto Alegre. Nos anos 1930, fui com ele até a Associação Rio-grandense de Imprensa, entidade que ele fundou e presidiu de 1933 até 1935. E, depois, viajei com ele em todos os seus romances, que vão desde os badalados “O Tempo e o Vento” e “Incidente em Antares”, até os menos famosos, mas tão bons quanto, “O resto é silêncio” e “Caminhos Cruzados”. E acompanhei a sua vida de perto pela excelente autobiografia “Solo de Clarineta”. Tudo isso sem contar na minha primeira ida aos Estados Unidos, através das páginas de “Gato preto em campo de neve” e “A volta do gato preto”. Enfim, mais uma vez, o espaço acabou, e a obra do Erico é muito boa e muito ampla para ser explicada em uma coluna. Portanto, a minha dica é: você não pode morrer antes de ler ao menos uma obra de Erico Verissimo. Se você morrer sem fazer isso, o capeta vai te cobrar e vai te mandar para as trevas! (não te convenci? Então, azar o teu, não sabe o que está perdendo). Até a próxima!