Excremento futebolístico e textual

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Na década de 1970, mais precisamente nos anos de 1975 e 1976, o jornalista argentino Orlando Barone conseguiu reunir, em encontros que foram gravados, dois dos principais nomes da literatura argentina: Jorge Luis Borges (1899-1986) e Ernesto Sabato (1911-2011). Dessas conversas, ele escreveu o livro Borges e Sabato, publicado pela Editora Globo em 2005. É um desses livros que vale a pena ler e ter na estante, pois o que Barone conseguiu foi uma raridade, tendo em vista que os dois escritores se odiavam, exatamente como aqui no Rio Grande do Sul se odeiam Juremir Machado da Silva e Luis Fernando Verissimo. Eu, que entrevistei o Luis Fernando Verissimo na casa dele para a minha dissertação de mestrado, e na semana retrasada tive o Juremir na minha banca de qualificação de doutorado, poderia dizer que seria um sonho reunir os dois inimigos em conversas como as que estão no livro Borges e Sabato. Mas isso não vem ao caso…

Lembrei desse livro porque a cada vez em que tento procurar algo importante na imprensa brasileira, na televisão, nos sites, nos portais de notícias, e só encontro baboseiras e coisas completamente banais, lembro do seguinte trecho da conversa entre os dois monstros da literatura argentina:

BORGES: Claro. Ninguém pensa que deve se lembrar do que está escrito em um jornal. Um jornal, digo, é escrito para o esquecimento, deliberadamente para o esquecimento.

SABATO: Seria melhor publicar um periódico a cada ano, ou a cada século. Ou quando acontece alguma coisa verdadeiramente importante: “O Senhor Cristóvão Colombo acaba de descobrir a América”. Título em letras garrafais.

Ler as páginas de esportes dos grandes jornais nessa época do ano, por exemplo, não serve pra absolutamente nada. Saber que o Grêmio contratou o Vargas. Grande porcaria!

Enquanto o Grêmio não conquistar um título importante, de nada vale tal notícia. No Inter: William diz que quer ser campeão brasileiro. E qual jogador que disputa o Brasileirão não quer ser campeão antes de o campeonato começar????

E Borges e Sabato já se davam conta dessas bestialidades midiáticas em 1974. O banal é esquecido. O relevante é permanente. Transações, especulações, jogadores de segunda linha, vice-campeões são todos jogados no mesmo saco: o da obscuridade. Títulos, troféus importantes, vitórias milagrosas, essas sim, são dignas de comentários em um texto impresso. Abordagens de fatos relevantes podem ser guardados por colecionadores e torcedores fanáticos. Já textos sobre fatos banais, vão para a gaiola receber do periquito aquilo mesmo que eles são: excremento.

Um bom final de semana a todos.