Jack London, o rejeitado

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Jack London (1876-1916) é o terceiro da minha lista de 10 mais da literatura ritteriana. Para falar a verdade, eu sempre lia sobre ele em livros sobre jornalismo literário, até que lá por 2010 eu estava zanzando pela Feira do Livro de Porto Alegre e deparei com “Martin Eden”, de London. Comprei. Fui adiando a leitura por um bom tempo, pois parecia ser um livro chato e massivo – sei lá, o título não despertava muita curiosidade. Mas, assim que comecei a ler o livro, mudei completamente de opinião. Talvez de todos os livros que li até hoje esse seja aquele com que mais me identifiquei.

Martin Eden é o nome do personagem semiautobiográfico do livro de London. Trata-se de um autêntico romântico que acredita ter um alto potencial literário, mas que enfrenta o mundo inteiro, que não deposita um centavo de confiança em seu trabalho: primeiro a família, depois os amigos, mais adiante os editores, em seguida a namorada e a sua retrospectiva família – principalmente pais e irmãos, que acreditam que ele nada mais é do que um vagabundo que não quer trabalhar. Todos cobram que ele “seja alguém na vida”. Resumindo, apenas ele, Martin Eden, acredita nele mesmo. E não desiste. Eis o ponto mais importante.

Dividindo o seu tempo entre aguentar a ignorância alheia, o trabalho manual que lhe rendia escassos dólares e as tentativas de publicações, ele se via andando cada vez mais para o fundo do poço, como é possível perceber no seguinte trecho: “Foram passando as semanas. Martin esgotou suas economias e os cheques dos editores continuaram brilhando pela ausência. Todos os seus manuscritos haviam regressado e sido de novo enviados. A literatura de cordel não lograra melhor sorte. Já não tinha a pequena cozinha adornada com grande variedade de alimentos. Surpreendido pelas dificuldades com parte de um saco de arroz e alguns quilos de damascos secos, seu cardápio passou a constar de arroz e damasco três vezes por dia. Duraram cinco dias as reservas; depois começou a comprar a crédito […]”. Enfim, sem um pila no bolso, passando fome, e com a namorada tentando convencê-lo a largar o sonho para aceitar o emprego oferecido pelo sogro – que o considerava um vagabundo preguiçoso e sonhador –, ele se manteve firme. E, por se manter firme aos seus ideais e ao sonho de ser escritor – vale a pena lembrar que estamos falando da sociedade americana pré-Primeira Guerra Mundial –, ele acabou sendo criticado e afastado de diversos ciclos sociais.

Martin Eden (alter-ego de London) foi discriminado, recriminado, ridicularizado, zombado, zoado, enfim, humilhado por acreditar no seu sonho. Até que finalmente teve um texto publicado. E não era nem um texto novo. Era um texto dos primeiros que ele havia produzido e que havia sido rejeitado por diversos editores. E depois desse teve outro texto aceito, e outros, e assim, finalmente, ele foi reconhecido socialmente. E com o reconhecimento social, veio o financeiro. E então, ele viu toda a podridão social e a escória do espírito humano ao ouvir os mais rasgados elogios daquelas pessoas que, quando ele não era bem-sucedido financeiramente, o diminuíam.

E o pior: essas pessoas não entendiam nada do seu trabalho. Estavam apenas de pernas abertas para a sua conta bancária. E, assim, London apresenta uma visão crítica da hipocrisia da sociedade americana de início do século 20 que pode ser perfeitamente adaptável à sociedade santo-angelense (e brasileira) de outubro de 2014.

Para além desse livro, vale a pena ler o clássico “Caninos Brancos”, que valeria outras colunas. Mas, como acabou o espaço, termino por indicar esse livro e “O andarilho das estrelas”. E, então, para falar minimamente da obra de London, seria preciso alguns volumes de milhares de páginas. Até o próximo autor-convidado: Charles Bukowski.