O medo e delírio gonzo

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Hunter S. Thompson, nascido na cidade de Louisville, no estado americano de Kentucky, em 1937, é o primeiro escritor da lista dos dez mais que apresentei na última semana. A minha relação com a obra de Thompson, por incrível que pareça, começou apenas quando eu estava terminando o mestrado, em 2010. Sempre ouvia falar de Hunter Thompson, mas nunca dava muita bola, até que peguei o livro “A grande caçada aos tubarões” – uma coletânea de textos e reportagens. Eu já tinha lido de tudo – dos malditos Bukowski e Bourroughs até os clássicos Shekeaspeare e Cervantes –, mas, mesmo assim, quando comecei a ler os textos de Hunter, comecei a exclamar para mim mesmo: “Caraca, o que é isso??? Nunca li nada parecido!”. É um estilo completamente diferente de tudo o que já vi! E, então, não parei mais. Passei a devorar tudo o que Thompson escreveu e, daí, surgiu o meu objeto de tese de doutorado: o jornalismo gonzo.

Mas, afinal, que diabos é jornalismo gonzo? A história é longa, e nunca caberia em uma coluna. Hunter Thompson, certa vez, em entrevista à revista Rolling Stone (na qual ele trabalhou boa parte da carreira), disse que o jornalismo gonzo surgiu apenas para se diferenciar do New Journalism – o estilo de jornalismo literário dos anos 1960 e 1970. Porém, para não confundir tanto a cabeça de vossa excelência, nobre leitor, recorro aqui à definição que o próprio Thompson deu ao jornalismo gonzo: “É um estilo de reportagem baseada na ideia de William Faulkner de que a melhor ficção é muito mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo – e os melhores jornalistas sempre souberam disso”. Confuso, não? Então, eis outra definição: “A verdadeira reportagem gonzo requer os talentos de um mestre do jornalismo, o olho de um artista/fotógrafo e os colhões firmes de um ator”.

Bom, como nem sempre o autor é a melhor pessoa para analisar a sua própria obra, eu ajudo vocês. No jornalismo gonzo o jornalista é o personagem principal da história. Ele participa, ele muda, ele interfere na história que está sendo contada. E ele diz tudo. E diz tudo, na maior parte do tempo, com ironia e humor – e no caso de Thompson, com o efeito das drogas, lícitas e ilícitas. E, assim, surgiu a expressão “medo e delírio” de Hunter Thompson, que ele utilizou no título de dois dos seus principais livros: “Medo e delírio em Las Vegas” e “Medo e delírio na campanha” (o segundo, sem tradução para o português). Esse espaço é realmente muito curto para falar sobre Hunter Thompson. E é difícil convencer alguém da qualidade de sua obra, a não ser dando os seus livros para serem lidos. Como eu passei por essa experiência, adotei essa metodologia em sala de aula. Sempre que vou falar sobre Thompson e jornalismo gonzo por aí, eu levo cópias de uma ou duas páginas de seus livros para entregar para os alunos. Uma vez um deles me disse: “Ouvindo você falar, eu estava tentando imaginar o que era jornalismo gonzo. E, lendo, vejo que é diferente de qualquer coisa que você possa tentar explicar”.

Hunter Thompson cometeu suicídio em 2005, aos 67 anos, na sua residência, localizada em uma fazenda em Woody Creeck, no Estado do Colorado. Quando entrevistei a sua viúva, na própria fazenda, fui até o seu escritório, local onde ele se matou e que continua conservado da mesma maneira como ele deixou. Por alguns segundos fiquei em silêncio, tentando imaginá-lo ali, sentado, escrevendo todas aquelas coisas que ele mesmo considerava “escrotas demais para se publicar”. Mas, a nós, simples leitores, resta seguir o que ele mesmo sugeria que fosse feito com os seus livros: buy the ticket and take a ride (compre o ingresso e dê uma volta).