O monstro contra o criador

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Há um bom tempo deixei de ler os textos de David Coimbra na Zero Hora e genéricos. Primeiro, comecei a achar muito mais do mesmo. Sempre mesmas piadas, mesmas metáforas, mesmas histórias de quando ele era adolescente e morava no Iapi em Porto Alegre, etc. Porém, de vez em quando, as coisas que ele escreve repercutem, e vou lá dar uma conferida. Ele começou a perder pontos comigo depois do texto que escreveu, dois anos atrás, sobre a identificação dos corpos das vítimas da boate Kiss. Achei aquele texto lamentável. O sujeito viajou de Porto Alegre até Santa Maria, se valeu de um privilégio por ser jornalista (tendo acesso ao ginásio onde os corpos estavam sendo identificados, sem ter nada a ver com nenhuma das vítimas) e fez uma espécie de conto tentando imaginar a vida das garotas mortas. Absurdo demais. Exploração barata repugnante. Pela primeira vez na minha vida, eu estava muito indignado com um texto de David Coimbra.

Poucos dias atrás, ele escreveu uma coluna defendendo um texto racista de Paulo Sant’Ana (que, em síntese, passou a ideia de que Punta del Este é uma maravilha por não ter uruguaios e, constatou bestialmente, lá também não tem negros). Esse foi um dos textos mais imbecis que já li publicados em um jornal de grande circulação. Pior foi a defesa de David Coimbra, querendo alegar que Sant’Ana teria feito apenas uma descrição. Juremir Machado da Silva, do Correio do Povo, deu uma resposta que deixou os dois no chinelo (podem procurar no mr. Google). E agora, na semana passada, David escreveu um texto reivindicando o fechamento da TVE (justamente uma das únicas emissoras no Estado que não precisam abrir as pernas para o mercado publicitário – ao contrário da RBS dele).

Então, dia desses, eu e minha irmã estávamos falando mal dos textos de David. Justo nós, que já lemos muitos livros dele e, antigamente, líamos com prazer as suas colunas religiosamente nas quartas, sextas e domingos. E entramos na seguinte questão: será que nós não tínhamos capacidade crítica para ler os textos de David Coimbra e ele sempre foi o elitista arrogante de classe média que pensa que é rico de Porto Alegre, ou ele piorou com o tempo? Eu tenho uma hipótese.

Creio que, por ter se casado e agora ser um pai de família, ele perdeu aquilo que fazia melhor: sentir no clima e colocar em palavras o que ocorria nos bastidores da noite porto-alegrense. Eram as cantadas, as histórias dignas de romances, cheias de humor e criatividade, que ele colocava no papel. Ele escrevia sobre futebol, fazendo metáforas com a vida noturna, com relacionamentos, etc. E, agora, ele parou de fazer isso. Está tentando colocar humor em assuntos sérios, nos quais não cabe (casos de racismo, tragédia da Kiss, etc.). E o resultado está sendo horrível.

Agora justifico o título da coluna. David Coimbra criou o monstro que vos escreve. Me incentivou via e-mail quando comecei a cursar Jornalismo. Apresentei trabalho sobre ele em encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), quando eu era um mestrando. Tenho praticamente todos os livros dele dos tempos áureos. Mas, assim como Sant’Ana (e assim como aqueles jogadores que já deram o que tinha que dar), cada vez mais me convenço de que ele nunca mais voltará a ser o jornalista e escritor que foi, que escreveu livros como “Viagem” e “Meu Guri”, que continuam sendo muito bons. Para ele e Sant’Ana, uma dica: aposentem-se, e curtam o prestígio construído décadas atrás. Façam isso e evitem o risco de serem comidos vivos pelos monstros que eles mesmos criaram…