O valor de uma final

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Alguém poderia me citar um jogo ou um Campeonato Brasileiro por pontos corridos que tenha sido histórico e que possa ser lembrado por torcedores do Brasil inteiro? Creio que não. Colorados vão dizer que foi o jogo em que perderam roubado para o Corinthians em 2005. Gremistas vão lembrar a perda dolorida do Brasileirão de 2008 para o São Paulo, depois de o time estar mais de dez pontos na frente. E gremistas e colorados vão recordar aquela última rodada de 2009 em que o Grêmio entregou para o Flamengo. Porém, algum torcedor de outro estado que não estivesse diretamente envolvido em tais disputas se lembrará desses jogos? Dificilmente. Não me lembro de nenhuma grande rodada ou de nenhum campeonato específico em que Grêmio ou Inter estivesse envolvido na era dos pontos corridos. E antes disso? Com certeza!

Sei até hoje de cabeça todas as finais. Desde a primeira, entre Atlético-MG e São Paulo, em 1971, até a última, entre Corinthians e Santos (e as fantásticas pedaladas do Robinho), em 2002. Desde a primeira final a que assisti ao vivo pela televisão (Flamengo e Botafogo em 1992) eu poderia escrever uma coluna dramática sobre cada uma delas por semana. Todas foram memoráveis. Todas foram históricas. Agora me pergunte quem foi o campeão brasileiro de 2007. Ou o jogo que deu o título ao Corinthians em 2011 (foi 2011?). Não lembro. Não tenho nenhuma referência quanto a isso.

Futebol é entretenimento, é paixão, é emoção. Os pontos corridos são muito chatos. E para quem alega que são mais justos, eu respondo: pegar adversários que estão envolvidos na Libertadores e de pouca expressão e abrir vantagem e depois apenas garantir essa vantagem no segundo turno tem algo de justo? Esse time é o melhor? E o fator emocional de uma decisão não conta para saber quem é o melhor? O Atlético-MG provou, massacrando o Cruzeiro em todos os campeonatos que disputou em 2014, que os pontos corridos não dão o título ao melhor time do País. E se der, o que teria de mais? A vida é justa? Não, não é justa. Então por que diabos o futebol teria de ser justo? Jogadores ganharem milhões enquanto um professor de escola ganha uma miséria é justo? Por que você não questiona essa injustiça?

É por isso que, ano a ano, cada vez mais e mais brasileiros estão se envolvendo com o Super Bowl. No ano passado, quando eu estava em Nova York, eu via pelas redes sociais o interesse dos brasileiros na final entre Broncos e Seattle. Neste ano, o interesse foi ainda maior. No Facebook, vi cornetas, comemorações e lamentações pelo título dos Patriots, conquistado em um jogo memorável, em uma virada espetacular, com um estádio lotado, com direto a show e tudo o mais. Enquanto isso, no Brasil, os clubes não sabem usar as arenas que têm. Não olham para os americanos; olham para a Europa (tudo contra o pseudoimperialismo). Alguém assiste à última rodada do Campeonato Espanhol? Ou ao jogo que dá o título de campeão italiano? Creio que a audiência dessas partidas é muito menor do que a da final do Super Bowl, mesmo se olharmos a audiência brasileira, a ex-terra do futebol. A final do Super Bowl, sim, foi um jogão. Foi inesquecível. Foi histórica. E na última rodada do Brasileiro 2014, quem ganhou mesmo?