Revolta

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Nos últimos dias fiz um curso de Jornalismo em Zona de Risco na Universidade de Columbia, aqui em Nova York. E, numa das noites, na volta pra casa, de repente me perguntei: “depois de dois meses aqui, estou com saudades do Brasil?”. Pensei nisso porque estava atravessando um pequeno parque, próximo a Columbia, de noite, com a mochila com uma máquina profissional e um notebook, carteira e documentos dentro, e não sentia nenhuma preocupação. Não sentia preocupação porque na minha frente caminhava uma mulher levando duas crianças pela mão. Não sentia preocupação porque havia câmeras de segurança por toda a parte (e polícia) e eu e todo mundo sabemos que aqui, nos Estados Unidos, se você assalta alguém e é pego, você vai ficar realmente preso por um bom tempo. E então, me questionei: do que sinto falta do Brasil?
Não precisei de mais de dez segundos para concluir que as únicas coisas que fazem falta aqui são: 1) minha família, 2) o Grêmio, e 3) meus amigos. Fora isso, não consegui lembrar mais nada. 
Digo isso porque, como já comentei outra vez nesse espaço, aqui as coisas funcionam. No mercado, na farmácia, no banco ou em qualquer lugar prestador de serviço sou atendido na hora e bem tratado. As pessoas dizem “por favor”, “obrigado” e “com licença”. Não tem cachorro de rua, e consequentemente, não se tem fezes caninas nas calçadas – a cena de alguém passeando com o cachorro e juntando as fezes com um saquinho é comum por aqui. Todos os banheiros são limpos e tem a torneira da água fria e a da água morna. E, pra completar, você paga barato por quase tudo: comida, roupas, tecnologia, telefone, internet, etc – a grande exceção são os imóveis. Mas, uma das minhas maiores revoltas com o Brasil diz respeito ao trânsito.
Estando aqui, cada vez que sei que algum familiar, parente ou amigo está na estrada, fico preocupado. Como no curso em Columbia um dos temas era justamente guerra, concluí que é assim que me sinto: a sensação que tenho quando alguém viaja por aí é que as pessoas estão no meio de confronto armado. E como todos sabem, realmente, os números são de guerra. E a forma absurda como tudo ocorre, também são dignos de um conflito sangrento. É praticamente comum, no Brasil, um motorista bêbado matar famílias nas estradas ou jogar o carro em cima de inocentes numa calçada. E isso revolta mais.
Dias atrás, numas das aulas na New York University, o professor deu um texto da Sonia Serra em que ela analisou porque os jornalistas brasileiros não abordavam a morte de crianças por omissão do governo brasileiro nos anos 1990, enquanto que os jornalistas estrangeiros davam destaque ao tema. A questão básica era: por que para os jornalistas brasileiros isso não é notícia e para os estrangeiros é? Claro, o objetivo do texto na aula não era o contexto social do Brasil, e sim a questão dos diferentes critérios de noticiabilidade dos jornalistas brasileiros em relação aos estrangeiros. Mas, como as pessoas são humanas, o assunto foi desviado e em pouco tempo a questão na sala de aula era: se o Brasil não consegue cuidar de suas crianças, é válida uma intervenção internacional no país? E a unanimidade na sala de aula (que tem pessoas do mundo inteiro – americano, francês, alemão, afegão, chinês, japonês, espanhol, mexicano, australiano, africano, etc) foi: sim! E eu também concordei, pois, realmente, acontecem coisas absurdas no Brasil mas que já estão naturalizadas na cultura e na história brasileira… Como essa questão do trânsito… 
E isso revolta demais, porque enquanto a gente vê projeto em todas as esferas públicas para criar Dia disso, ou Dia daquilo, ou Vamos mudar o nome da Rua X para Rua Y , esses absurdos continuam acontecendo, todos os dias… E enquanto o estrangeiro que olha para o Brasil se revolta, o brasileiro, que é o verdadeiro prejudicado pelo quadro, não está nem aí… E isso revolta ainda mais!
Enfim, escrevi demais, e antes que o editor corte metade do texto, paro por aqui… 

Até a próxima!