Vida e morte

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Escrever essa coluna está sendo bem mais difícil do que parece. Esse começo de 2013 está mais do que confuso para mim. Por um lado, estou prestes a realizar um sonho. Fui aceito no doutorado da New York University como aluno estrangeiro através de programa oferecido pela Capes, do Ministério da Educação do governo brasileiro. Ou seja, vou para a tão sonhada capital do mundo, com tudo pago, para ficar de meio ano até um ano em uma das universidades mais importantes e concorridas do mundo. E mais: para estudar o que eu gosto. Eu deveria estar dando pulos de felicidade, entretanto, não é esse meu sentimento.

Primeiro, houve toda a tragédia da boate Kiss. Creio que poucas vezes na vida chorei diante da TV, mas essa foi uma delas. Assistir ao depoimento de pais, irmãos, namorados, namoradas e amigos na tela fez com que as lágrimas saltassem de meus olhos. E tudo piorou na medida em que ficava sabendo das vítimas de Santo Ângelo e Ijuí, duas cidades em que morei durante muitos anos, e principalmente ao ver que Matheus Rebolho, irmão do meu amigo e ex-colega de cursinho pré-vestibular Clóvis Rebolho, estava entre as vítimas. Creio que, como todos, fiquei depressivo, e ainda continuo nesse estado. Porém, acho que nada pode se comparar à dor de todos os pais e irmãos das vítimas.

Quanto às consequências, da minha parte, só posso rezar todas as noites por todas as vítimas da tragédia e familiares. Como jornalista, creio que toda a categoria deveria exigir justiça e desvestir a carapuça da complacência, pois todos sabem que isso poderia ter acontecido em qualquer outra boate.

Exaltei-me, mas me irrita o fato de A CARA DE PAU e a corrida cega pelo lucro ficar ACIMA da vida das pessoas. Tenho uma filha e sei do que estou falando.

Bem, mas para além da boate Kiss, encontro-me em outra situação de problemas de saúde na família que me fazem parar para pensar na finitude dessa vida. Trata-se da minha tia, e segunda mãe, Eva Silvello, que até escrever esse texto estava em estado grave em Ijuí devido a um câncer. Durante boa parte da minha passagem pela universidade ela me hospedou em sua casa, além de muitas outras histórias de gratidão que devo a ela ao longo desses meus 31 anos. Nessas horas não encontramos palavras para explicar o inexplicável, pois, apesar da morte, a vida, para alguns, continua. Minha tia passou pelo que muitos pais da tragédia da boate Kiss estão passando: perdeu um filho, Gilberto Silvello, então com 33 anos, em um acidente de carro causado por um motorista embriagado. Além dele, morreram a mulher, o filho de três anos e dois sobrinhos que estavam no carro. Meu primo, Gilberto, e a mulher, Lígia, eram médicos e estavam voltando de um passeio familiar simples feito à Fonte Ijuí no dia 1° de janeiro de 1995, quando um bêbado #+%&^[email protected]# jogou o carro em cima deles. Todos morreram.

Ao mesmo tempo em que sofro com a perda de uma pessoa tão importante na minha vida, penso que, por outro lado, ela vai encontrar o filho perdido. Como pai, sei o que isso representa.

E o futebol? Sinceramente, é o que menos importa.

O espaço acabou e não encontro palavras para encerrar esse texto, portanto, termino por aqui.