Uma tropeada, um dogma

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O sol, já baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas faz lembrar o encantamento da gloriosa lida de tropeiro, contada pelo velho tropeador, enquanto sorve, na companhia dos filhos e netos, o chimarrão costumeiro, sob o beiral do galpão.

– De uma feita, já há alguns anos, ao conduzir uma tropa, numa estrada desta região missioneira que se distendia deserta, ladeada por caponetes de branquilhos, com manchas de madeiras de lei dando contorno a belíssimos rincões de campo fino, povoados de trevo e grama de forquilha. Nestes campos que se desdobravam a perder de vista, pacatos, verdes, clareados pela luz macia do sol e manchados de pontas de gado, foi onde conheci um fazendeiro, que sem premeditar, transmitiu-me um ensinamento que até hoje sigo.

Acompanhava a tropa que ia modorrenta estrada a fora, numa sonolência contagiante que previa, de certo modo, a aproximação da noite e a chegada do esperado pouso na fazenda que surgia ainda a longa vista. Estava a distância mais ou menos de seis léguas e meia de casa, o que nos dizia ainda faltar certamente, dois dias de caminho pela frente…

Enveredando o gado rente a cerca, toquei meu zaino a trotezito deixando na ponta o guri que acompanhava como peãozinho da tropeada, e, na culatra o atento compadre, meu companheiro de muitas jornadas, para que eu pudesse acelerar o trote e avisar o capataz da fazenda que chegávamos para o pouso.

– Com licença!

– Aprochegue…

– Boa tarde, estou com a tropa da qual já tratamos o pouso, vim até aqui prá avisar de nossa chegada…

– Seja bem vindo, o potreiro está a sua disposição. Pode recolher o gado e passar ao galpão para descanso e pousada. O patrão logo chega…

Dirigi-me ao cavalo que ainda buscava na grama miúda bocadas de seiva para aliviar o suor e o calor, parecendo saber que teria de refazer a caminhada ao encontro do gado que costeava o corredor.

O trajeto era curto e segui assobiando para acalantar o ouvido do zaino, pressagiando descanso no galpão da estância.

O gado repontado a passito até o potreiro foi pastoreado para esfriar o corpo antes de ser levado à aguada.

Em meio à amarilhos e corticeiras, corria calma e límpida uma vertente de águas claras, esverdeadas, em contraste com a vermelhidão do sol poente. Conforme seguia o curso da vertente, ia deslumbrando a nossa frente uma lagoa povoada pela plumagem branca dos joão grandes, prestes a ser invadida pelas reses sedentas por sugar o fluido refrescante, e debelar a sede.

O gado havia descansado pastando e então conduzido até a lagoa para sofregamente, saciar a sede. Era o elemento mais importante da tropeada e a principal preocupação dos tropeiros. Precisavam chegar ao destino com todos os bois em boas condições.

Gado acomodado, era hora de acomodar os homens.

Como todo galpão de fazenda, silencioso e acolhedor, este deixava transparecer em seu interior a sina de hospedaria dos viajantes dos rincões, que no lombo de seus cavalos venciam as distâncias dando cabo de seus afazeres.

As paredes traduziam o tempo. Mostravam ter passado por diferentes momentos. As fagulhas luminosas que disparavam dos tições em brasa lembravam a alegria da família reunida na hora do mate e a tagarelice dos mais miúdos. O trepidar do fogo de chão, acusava a hospitalidade junto ao lugar de descanso da peonada na hora em que colocavam em holocausto, todos os ofícios realizados em mais um dia. As silhuetas de picumãs, impregnados na madeirada, exultantes exprimiam em sua quase férrea estrutura, ser este galpão, cerne e essência, encravados nos corações de muitas gerações.

O torpe silêncio no ritual de cevar o mate antecedendo o jantar foi interrompido pelo tilintar sonoro de uma espora, que ao adentrar sorrateira no galpão, surge completando a indumentária de serviço do senhor dono da fazenda.

– Sejam bem vindos a esta propriedade, a mim pertence mas esta aqui para também acolher aos amigos…

Com essa saudação, deixando antever a hospitalidade carregada de receptividade e cortesia estendeu a mão, retirou da cabeça o chapéu de abas largas deixando as claras sua imagem facial.

A cor de cuia combinando com os cabelos negros muito lisos que contornavam a face rechonchuda, definindo um par de olhos amendoados, transmissores de confiança e jovialidade, retratava um ser definitivamente adaptado ao meio em que se estabelecera. 

Enquanto analisava a figura do fazendeiro me veio à lembrança figuras encontradas em livros, retratando o índio, o guarani, tal era a semelhança na fisionomia como na estatura atarracada.

Correu o chimarrão, a prosa referente a tropas, campereadas e carreiras, experiências de um e outro com o gado, até ser servido o jantar. 

Causou estranheza nos tropeiros, devido ser servido na sala de janta da casa da fazenda e não no galpão. Era mais comum em tropeadas, os próprios tropeiros fazerem sua alimentação no local do pouso, pois, levavam sempre consigo mantimentos para todo o percurso.

A noite bem dormida, homens descansados e refeitos retornam aos afazeres.

Surgindo as barras do dia, dado o trato aos cavalos, repontado o gado em direção da porteira da fazenda para reiniciar a caminhada, apeei do cavalo me dirigindo ao proprietário para acertar o valor do pouso;

– Antes de me despedir, quero acertar o que lhe devo pela hospedagem e pastagem da tropa…

– Amigo, o pouso aqui não tem preço. Cada um que passa por aqui deixa um amigo, e a amizade não valoriza patacas, ela avalia o sujeito… se este for o seu caminho noutra ocasião, chegue pra tomar um chimarrão e entreter com mais uns causos. Mas não peça que lhe cobre pelo que a natureza dá a todos.

O tropeiro insistindo ser sabedor dos valores da pastagem e da pousada reforçou o desejo de recompensar o descanso da tropa, porém, com veemência, nada foi aceito.

Despediu-se matreiro, pensativo, e absorto nos pensamentos. Cavalgou a trotezito, buscando uma justificativa para o acontecido…

– A semelhança desse gaúcho com um índio não é debalde… Desde o primeiro momento em que nos avistamos, a figura dos livros não saiu da minha mente…

A receptividade e a hospitalidade do homem, o hábito de mais ouvir do que contar causos, o sossego expresso através dos olhos amendoados, o riso acabrunhado expresso por lerdo movimento dos lábios, me levam a conjeturar…

Decerto inda neste tempo, eles andam povoando a pampa, esparramando no mundo jeitos da herança índia, modos de gente humilde que trata todos como igual, e até reparte seus pertences…

Sorvendo o mate com os filhos, o velho tropeiro explora o silêncio e erguendo o olhar, numa muda prece percebida pelos seus, agradece os ensinamentos vividos nas tantas tropeadas.

Ao longe, na linha do horizonte, figuras negras do gado em contraste com os últimos raios de clarão revelam ser hora de recolher, hora de eternizar as dádivas do povo gaúcho perpetuadas no jeito simples, hospitaleiro, sereno e sincero do nativo do sul, sempre pronto e a espera de novas e diferentes tropeadas.

(por Clotilde Mousquer Farias – o texto foi classificado em segundo lugar no Enart, em Santa Cruz do Sul. O seu esposo César Farias tirou primeiro lugar na categoria Causos)