Agora é a minha vez

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Às vezes é bom dar um tempo. E eu demorei. Foi porque eu acreditei cegamente que aquilo era o melhor pra mim. Não era. Paciência. Errar faz parte do jogo da vida. Por isso que eu sempre preferi o Banco Imobiliário. Três anos, quase quatro. Este foi o tempo. O prazo. O namoro. Hoje em dia, para muitos, isso é muito. Talvez. Mas foi bom, enquanto durou. Brigas? Ah, elas sempre vão nos acompanhar. Em casa, no trabalho e até nas horas de lazer. Ciúme? Este também, porém, há uma premissa que diz que quando um não quer dois não brigam.

Então me libertei de todo o tipo de cobrança sem sentido e decidi mudar o rumo das coisas. Ficar só não é tão ruim assim, só no começo, um pouco, acho que é normal. É a minha primeira vez. Um e outro pote de sorvete, qualquer filme idiota num canal idiota, chocolates e travesseiros macios. Perfeito. Mas somente no primeiro final de semana, afinal, o jogo continua. Os dados serão jogados mais uma vez. Espero tirar dois seis. Com dados iguais, é possível jogar novamente. E jogando duas vezes posso ir mais longe. Sim eu chorei, mas criei asas para voar. Saí da gaiola. E agora o meu canto é de alegria e não de tristeza.

Eu ainda me lembro daqueles dias em que me dava ao luxo de sair de casa. Ia pra aula, prestava atenção no que dizia o professor de tributário, conversava com uma e outra colega, e depois ia pra casa de alguma delas. Tomar um pouco de cerveja, dançar e olhar para algum cara bonito. Eram dias legais. O chato é que eu não sei como recomeçar. Parece que falta óleo. Alguma coisa. Acomodação. Eu estava a tanto tempo acomodada que não sei mais o que se faz na solteirice. De praxe, a primeira coisa é adicionar algumas pessoas que até então eram ditas como proibidas, geralmente algum ficante do passado, mas somente aqueles que valeram o beijo, ou ainda, o cara da biblioteca que sempre me convidava para um café. Mas será que ele ainda quer esse café? Já faz tanto tempo. É o preço que se paga. A fidelidade sempre me acompanhou, e talvez isso seja algo bom. Digo talvez, porque já vi tanta putice por aí, que meus olhos demoraram a crer. Foi o choque. Normal.

O engraçado de ficar assim, de boa no meu canto, é ver o número de janelinhas subindo. Parece que boa parte dos meus contatos ficou feliz em saber da notícia. Mas por que não conversavam antes? Segundas intenções. Claro, estou mais madura, já não sou mais uma garotinha. Tornei-me numa mulher. Querem o meu sexo agora. O meu ego agradece. Mas não. Estou bem do jeito que estou. Serena. Tranquila. E essa história não é somente minha. Deve haver outras como eu. Livres. Independentes. Bom, até uma altura né, eu ainda não saí de casa. O baralho está na minha frente, posso escolher as cartas que irei jogar e as que não irei jogar. O leque é grande. Quatro naipes. Espada, copas. Paus e ouro. Sorte ou revés. E agora que a prisão não faz mais parte da minha vida, estou pensando em comprar o Interlagos e o Morumbi nas próximas duas rodadas. Prepara-te! Porque agora é a minha vez de jogar os dados.